CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

10/04/2021

08:49:44

COISAS PEQUENAS

COISAS PEQUENAS
Certa vez, disse a um grupo de amigos que o mundo havia piorado. Todos discordaram. Um deles exaltou a anestesia no tratamento dos dentes: “antigamente devia ser uma terrível tortura!”; outro elogiou o progresso tecnológico, e o terceiro disse que até os pobres vivem melhor hoje do que ontem, pois, no tempo dele, pobre nem sequer comia presunto. Pareciam todos certos em seus raciocínios, mas somente porque tiveram o “raciocínio lógico inicial”...

                ...Isso nada mais é do que aquele raciocínio imediato  após ouvirmos algo que nos parece estranho. A resposta vem pronta e parece lógica e correta. Acontece que eu não falava do progresso dos homens, falava deste mundo mesmo, esta terra em que pisamos, este mundo do qual comemos e bebemos desde o mais longínquo antepassado da espécie. Este mundo que nos foi entregue com florestas verdes, ar cristalino e águas límpidas. Este mundo piora muito, inexoravelmente. E não pode ser de outro jeito, pois é sobre ele que amamos, nos multiplicamos, sofremos e dele retiramos todas as nossas necessidades. E fui pensar nessa piora do mundo por causa de uma coisa pequena, um pedacinho do mundo que existe diante da minha janela. Nesse pedacinho de mundo havia mata e uma gentil casinha. Na mata existiam duas jaqueiras, um pé de limão-galego, umas moitas de capim-colonião, um bambuzal bonito a se lamentar com o vento, uns pés de aroeira e vários arbustos que se misturavam com uma galharia danada. Além disso, havia os pássaros que brincavam no terreno. Posso garantir que por lá passaram sabiás, bem-te-vis, pombos, rolinhas, sanhaços, pardais, canários-da-terra, biquinhos-de-lacre, periquitos, maritacas e um ou outro pássaro estrangeiro fugido de alguma gaiola, que no terreno buscava pouso e abrigo. Acho que vi um canário-belga, certa vez. Tinha a fauna terrestre também, composta de gambás, ratos e micos, e dos gatos que perambulavam silenciosos como pequenas onças. Notava-se algo de caótico naquela floresta urbana embaixo da minha janela.  Um dia foi floresta virgem, arrasada e abandonada pelos homens, transformada em terreno árido. O caos vegetal era a tentativa do mundo de recuperar o que lhe foi tirado, desbastado, cortado e deixado para lá. Então o tempo passou, vieram as chuvas, os insetos, os ventos e os pássaros com as sementes, e a terra vilipendiada recuperou-se. E sem preconceitos, pois ali viviam em harmonia com a flora nativa os estrangeiros limão-galego, o capim-colonião e as “nossas” queridas jaqueiras. Os olhos repousavam no emaranhado verde e se distraíam com seus habitantes.

            Separada do terreno por um muro com um portão, havia a casinha. Era casinha antiga, do tempo em que ainda não existiam edifícios na rua. Tinha telhas francesas, paredes pintadas de branco, janelas azuis e uma treliça de madeira na parede dos fundos, sobre a qual subiu uma hera que ninguém podava. No quintal floresciam hibiscos e rosas e, num canteiro colado ao muro, hortaliças se misturavam ao mato comum. Um sapotizeiro fazia a alegria dos passarinhos e dos morcegos. Vez ou outra aparecia uma senhora de idade para mexer na horta.  Um dia a senhora desapareceu e fecharam a casa. Depois uns homens desembarcaram de um caminhão, entraram no terreno embaixo da minha janela, derrubaram as jaqueiras, cortaram o pé de limão-galego, as aroeiras, transformaram o bambuzal num tufo de cotocos e deixaram a terra nua. Sobre ela construíram galpões com cobertura metálica. Fizeram um estacionamento. Acabaram-se os trinados, mas há o barulho de motor, buzinas e às vezes dispara um alarme gritante, cujo som estridente permanece nos ouvidos mesmo depois de ter sido desligado. Não tardou para atacarem a casinha. Cortaram o sapotizeiro, os hibiscos e as rosas, arrancaram a hera e a treliça e cimentaram o quintal. Onde existiu a horta fizeram uma cobertura de vidro e metal. A casinha foi pintada de um amarelo fulgurante. Quando bate o sol, parece que as paredes gritam.

            De vez em quando eu chego à janela, mas olho para o céu. Meus olhos se ressentem da reverberação da luz e do calor sobre o metal e o cimento. Penso que minha vida também é composta de pequenas coisas, entre elas olhar pela janela. Recordo o terreno que se foi, levando consigo suas criaturas. E confabulo num humilde exercício filosófico que é isso mesmo, o destino do homem é transformar este mundo, e cada geração futura conhecerá apenas o mundo que lhes dão e achará bom, e se sentirá feliz.

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