CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

13/05/2022

09:08:25

ASSOMBRAÇÃO

ASSOMBRAÇÃO
       Outro dia recebi um e-mail que mostrava coisas sobre a educação de quem foi criança nos anos 50 e 60 e “sobreviveu”. Época em que as crianças eram mais soltas, os pais menos informados e as ruas muito mais interessantes do que qualquer parafernália eletrônica...

       ...As crianças inventavam os próprios brinquedos, a maioria herdada das gerações anteriores, pois as coisas não mudavam muito. Se tinha piolho, os pais sapecavam neocid nas cabecinhas; cinto de segurança não havia nos carros, e se havia ninguém usava; criança chegava da escola e ia brincar na rua que era lugar de criança brincar, e na rua brigava, tomava pedrada, bebia água de torneira e, se chegasse muito sujo, ainda apanhava da mãe e tudo ficava bem, pois assim era a vida. Às vezes se inventavam brinquedos perigosos, como descer ladeiras em carrinhos de rolimã e fazer guerra na base da pedrada. Criança apanhava, ficava de castigo e ninguém ficou maluco por causa disso. Resumidamente, assim contava o e-mail, se contrapondo aos excessos de cuidados, “direitos” infantis e salamaleques com as crianças nestes tempos contemporâneos. É, pode ser, mas vejo os pais de hoje mais bem informados, mais cúmplices dos filhos e mais sensíveis aos seus problemas. Nos “anos dourados”  criar um filho não levava muito em conta aspectos psicológicos. Poucos os pais que pensavam nas “cabecinhas das crianças”, a maioria não se mostrava sensível a isso. Tenho uma amiga com mais de sessenta que tenta até hoje se livrar dos pais e não consegue, e olha que os pais já se foram faz muitos anos. Cresceu ouvindo comparações com as irmãs, “psicologia” comum na época. Suas irmãs tinham cabelo liso, corpinho bem feito, mas ela, “tadinha”, era toda “quadradinha e de cabelo crespo”: “onde essa menina foi arrumar esse cabelo, meu Deus?”. Ouvi falar de um rapaz que enfrentou sérios problemas de timidez e de escolhas na vida, porque seus pais o comparavam com o irmão, “mais inteligente” porque tirava melhores notas.  Os pais de hoje foram aquelas crianças dos 50 e 60, adultos que enchem os hodiernos consultórios de terapia. Por que será?

            Eu mesmo posso dizer que sou uma vítima daquele tempo de pouca sensibilidade psicológica. Por falta de cuidados, tornei-me um adulto com medo de assombração. Não coloco toda a culpa nos mais velhos, uma parcela se deve a minha curiosidade. Os adultos gostavam de contar histórias de assombração e contavam na frente das crianças. Parecia que o mundo estava em formação e histórias sobre almas do outro mundo, discos voadores e comunistas povoavam as conversas. O mistério dos discos voadores continua, mas amenizado pelas descobertas tecnológicas, pelo menos, sabe-se que da Lua e de Marte eles não vêm. Os comunistas também perderam a aura de terror, definitivamente não comem criancinhas e se tomassem o poder não esfaqueariam as crianças da classe média atrás da igreja. Mas aquelas conversas de assombração ficaram no meu subconsciente. Tem muita gente boa aí que dorme de luz acesa, como se isso espantasse assombração. Eu era criança e quando ouvia certo tom nas vozes dos adultos, não tinha dúvida: ou estavam falando mal de alguém ou contavam casos de assombração, aí eu ficava rondando, prestando atenção nas conversas. Não esqueço quando aparecia lá por casa a D. Lourdes, aliás, já falecida. Era um verdadeiro cabedal de histórias de alma do outro mundo. Gorduchinha, baixota, cabelos negros puxados para trás num coque, olhos escuros assustadiços a se arregalarem na cara muito branca. Um dos seus casos ficou gravado em minha mente. Uma conhecida da D. Lourdes, querendo saber se os mortos voltam, perguntou:

            ‒ Por favor, se é verdade que os mortos voltam, mandem um sinal.

            Então ela ouviu sobre a mesa da sala: toc, toc, toc. Três batidas de uma mão  muito ossuda.

            D. Lourdes contava aquelas coisas com os olhos muito abertos, a voz trêmula e sussurrada.

            As empregadas também tinham casos para contar. A que trabalhava conosco dizia que na curva do caminho para sua casa, muita gente tinha visto um vulto à noite.

            ‒ E como era?

            ‒ É um vulto que aparece.

            Essa história de “vulto” me deixava apavorado.

            O pai de um grande amigo, um senhor sério e respeitado, contava que seu avô caminhava por uma estrada altas horas da noite, quando viu um negócio muito feio, mas tão feio que nem gostava de tocar no assunto.

            ‒ Mas... Mas como era?

            ‒ Era um negócio muito feio!

            E ainda havia a apavorante “mulher de branco”. Bela e sorridente mulher que ia no ônibus até o ponto final, dizia um “boa noite” ao motorista, batia-lhe amigavelmente nas costas deixando a marca de sua mão enlameada e desaparecia antes de descer do ônibus.

            Pois é, essas histórias dos adultos pouco sensíveis deixaram em mim marcas profundas. Mas confesso que até hoje nunca vi alma do outro mundo. Andei vendo e ouvindo umas coisas, mas atribuí a coincidências da natureza. Na verdade, o problema de assombração é que elas só aparecem à noite, no escuro, quando estamos sozinhos. Eu não as temeria se aparecessem durante o dia no calçadão da praia. Talvez, por isto, ultimamente eu tenha evitado certas noites de lua e momentos de solidão em locais escuros e silenciosos. A cabeça da gente vai imaginando coisa, puxando daqui e dali histórias quase esquecidas, trazendo casos que pareciam mortos. Isso assusta, dá pontada no coração, faz a gente até chorar.

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