CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

14/11/2021

09:23:40

CAMINHOS INVISÍVEIS

CAMINHOS INVISÍVEIS
O novo ano amanhece com sol, o sol sem calor do inverno europeu. Saímos a passear e atravessamos a Champs Elysées no mesmo local, creio eu, que Anouk Aimée atravessou, embalada pela canção na voz de Nicole Croisille. Falo sobre o filme com você, que nasceu naquele ano de 1966, e você me olha com o mesmo olhar de Anouk Aimée a lembrar o amado e falecido Pierre Barouh, enquanto Jean-Louis Trintignant  tentava impressioná-la. O vento gelado corre pela avenida. Você está bem agasalhada e eu cubro minha cabeça com o capuz do casaco, mais para esconder a indesculpável e anacrônica boina, que tive a coragem de comprar e usar, do que pelo frio. Penso ser o único a usar boina em Paris...

           ...‒ Quero caminhar! Me mostre a cidade – diz você, que não sabe, mas trilha meus caminhos invisíveis.

            As cidades são cheias desses caminhos traçados e oferecidos nos mapas pela História, pela Literatura, pelo cinema, pelas artes. Dessa vez escolhi o cinema e vou trilhando rumos de filmes e cenas que me chegam à cabeça aleatoriamente. Pegamos o metrô e descemos em Notre-Dame. Queria massagear seus pés no square Jean XXIII, mas ao chegar lá me esqueço disso. Esqueço-me ainda que é inverno e me surpreendo com as ausências do verde e das flores, que dão tanta vida àquele recanto em outras estações. As árvores estão quase nuas e começa um chuvisco. Paris drizzels. Mas conto a você a história de Peter Coyote e Emmanuelle Seigner e acho que algo doce passa em seu pensamento, pois me beija e afaga. O olhar ainda é anoukaiméesiano, não de fastio ou indiferença, mas da melancolia que a persegue.

 

            O chuvisco cessou e caminhar é a melhor coisa a fazer por aqui, e você gosta disso. Seguimos ao longo do Sena, repisando pegadas.

            ‒ Foi aqui, bem aqui – disse-lhe eu.

            ‒ Aqui o quê ?

            ‒ Foi aqui que o inspetor Javert se suicidou arrojando-se ao Sena numa noite da década de 1950.

            Conto-lhe a saga de Jean Valjean como se fosse testemunha do drama, enfatizando o “mergulho” de Robert Newton/Javert no Sena. Ao retornarmos, mostro-lhe a Alexandre III, que penso ser a ponte mais charmosa do mundo. A ponte resplende ao brilho intenso e oblíquo do sol de inverno que resolveu reaparecer. Você tem óculos escuros, mas eu mal consigo abrir os olhos, como sempre aconteceu comigo nos verões sobre as areias alvas de Cabo Frio e Arraial. Há tanta luz que parece espantar sua melancolia. Os raios fúlgidos como os raios do sol brasileiro reverberam na arquitetura do Grand Palais e do Petit Palais, e eu noto um sorriso de fascinação em seus lábios. Você quer uma foto na ponte, naquele vão, com a torre lá atrás. Tira a écharpe e exibe ao sol parisiense seu belo pescoço. A visão do seu pescoço prende meus olhos e meu pensamento: hesito com a máquina fotográfica nas mãos. Você se impacienta e a fotografo de diversos ângulos. Passeamos pela ponte e me lembro de que em algum ponto por aqui o jovem e emotivo resistente Jean-Pierre Léaud não conseguiu matar o soldado alemão, tão jovem quanto ele, e ainda acabou por fazer uma foto a pedido do tedesco. Andamos até Invalides, mas o sol parte e começa um ventinho fresco que não tarda a mostrar sua insídia. A chuva fina nos levou de volta ao hotel. Deixo-a no quarto e saio para comprar o seu desejo no momento: chocolate. Está tudo fechado, mas o concierge diz que pode haver algo funcionando na rue Lauriston. Percorro vários quarteirões daquela rua estreita. Não há vivalma. Acho-me, de repente, diante do número 93. Ali existiu o quartel da Gestapo em Paris, um centro de tortura e morte. Além dos alemães, atuavam lá colaboradores franceses, todos muito humanos, pois é exclusivamente humana a capacidade de supliciar seu semelhante. Fico parado em frente ao prédio sóbrio e sombrio. A quietude da rue Lauriston atiça minha imaginação, mas não quero esses pensamentos e me afasto do prédio que foi um dia a sucursal do inferno. Caminho mais e encontro o mercadinho de um árabe. Compro o chocolate para agradá-la e essa função me aquece nesse inverno.

 

           

           

            

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