CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

20/10/2021

19:59:21

PERIGOS

PERIGOS
​Sim, Sr. Auguste de Saint-Hilaire, foi o senhor que muito bem definiu aquilo que ouvi no meio do capim naquela fazenda das Gerais. Ouvi e não vi, mas me precavi e pulei fora. A definição tradicional é ser o som parecido com o de um chocalho. Tudo bem, é próximo a isso mesmo. Mas o senhor define exatamente igual: “...ruído semelhante ao que faria a areia caindo sobre papel”. Foi isso que ouvi. E às vezes parava e recomeçava. Certamente me safei por pouco. A bichona estava ali, pertinho de mim, com o bote preparado. Se eu desse o passo fatal...

Conta-se que o mandatário de uma província romana fez construir um fosso embaixo de sua casa, banhada pelo Mediterrâneo. Ali criava moreias, sempre famintas. Às vezes jogava um infeliz lá dentro e se deliciava com o espetáculo. No filme “Spartacus”, estrelado por Kirk Douglas, há uma cena em que atiram um coitado num fosso de moreias. Talvez tenha sido inspirada na história do tal romano.

Há muitos anos eu nadava e caçava na água azul, ao longo do costão da Praia dos Anjos. Lá no final, onde o costão aponta o Leste, vi uma pequena caverna na base de uma pedra, a uns cinco metros de profundidade. Mergulhei para examinar. Naquele tempo não tínhamos lanternas submarinas. Enfiávamos a cara nos buracos até os olhos se acostumarem à escuridão. Cobiçávamos as garoupas, peixes que vivem no breu das tocas. Enfiei-me na pequena caverna até os ombros. E lá fiquei, olhando o escuro. Pressenti um movimento a centímetros da face. Olhei de esguelha. E identifiquei a boca cheia de dentes de uma grande moreia. Ela abria e fechava a boca. Se me pegasse, eu não conseguiria sair dali, é um bicho de muita força, morreria talvez não da mordida, mas afogado, preso por ela em sua caverna. Fui saindo devagar, e ela atrás de mim, pertinho, pertinho. Deixei meu corpo subir para a tona e a vi inteira fora de sua morada. Imensa moreia da cor de uma saudável folha de bananeira. Pesou nove quilos e oitocentos gramas.


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Chovia e fazia muito calor naquela tarde no cemitério Maruí. A capela onde velávamos o corpo da mãe de uma amiga era pequena e abafada. As pessoas se apertavam ali dentro. Mas a chuva amainou e eu saí a perambular entre as tumbas. Olhava as fotos, as datas mais longínquas e as recentes, fazia cálculos e pensava na breve existência e naquela silenciosa igualdade. Percebia comovente dignidade em sepulcros mais simples, comparados a barroquismos ostentatórios. Então um zumbido cortou o ar pertinho do meu peito. Algo bateu na parede da tumba a meio metro de mim e fez “ploc” dentro de um vaso de cerâmica cheio d’água. Olhei lá dentro. Era uma bala de fuzil. Douradinha, fininha. Deve ter viajado bastante, pois me pareceu sem força. Não encontrou ninguém pelo caminho e acabou ali, num lugar muito propício para se terminar uma trajetória.

 

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