CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

02/08/2021

13:29:26

EULÁLIA

EULÁLIA
A velha trincava uma coxa de galinha. A boca brilhava de gordura. Tinha olhar de comerciante esperto. ‒ Ah, gosto de terra, meu jovem, gosto muito de terra... – disse com jeito matreiro, me olhando de lado entre uma chupada e outra no osso da galinha. Devia gostar mesmo. Sua fazenda media mais de trezentos e cinquenta alqueires mineiros e ela perturbava um sitiante vizinho para que lhe vendesse dois hectares de várzea. As terras não produziam coisa nenhuma. Mantinha um gadinho girolando mais uns pés-duros em pastos malcuidados. Tal qual o gado, mantinha uns colonos miseráveis em duas ou três taperas. Eu já poderia ter ido embora. Fiz o atendimento, deixei recomendações sobre o pasto e o gado e tinha vacinado os três vira-latas da velha, mas aceitei o convite para a canja que fumegava no prato...

               ...Terminava o dia. Mugidos distantes e o “qui, qui, qui” das seriemas marcavam aquela hora triste. Os morros, planuras e florestas da imensidão de terras da velha adquiriam um tom monocromático. Aquilo tudo, um dia, foi cafezal. Mas acabaram-se os escravos, os barões morreram, seus filhos não suportaram a vida dura, então chegaram os comerciantes feito o marido da velha, um povo ignorante e trabalhador, de pé no chão com bosta de boi entre os dedos, mas com enorme talento para ganhar dinheiro e fazer negócio à vista. Gente capaz de derrubar tudo e vender cada pé de árvore das florestas e cada ripa do belo casarão dos tempos do segundo Pedro. A fachada já ostentava a ação do casal, que havia transformado uma das arcadas coloniais da varanda em garagem, fechada com porta de aço de correr.

            Normalmente, eu não aceitaria o convite para jantar, não gostei da velha, teria sido uma megera dos tempos coloniais. Fiquei por causa do casarão, e por Eulália, que me fitava com olhos negros.

             Em torno da mesa centenária, onde jantávamos a velha e eu, quatro negrinhos deitados sobre o assoalho viam televisão. Todos chamavam a velha de “madrinha”. O menorzinho, talvez uns três anos, vestia uma camiseta e estava pelado da cintura para baixo. Rodava em volta e, às vezes, ficava na ponta dos pés para bisbilhotar alguma coisa sobre a mesa. A velha lhe dava um naco de frango ou o enxotava com um tapa na mãozinha. Aquilo me lembrou Lobato, sua Negrinha e a velha Inácia, gorda e velha feito a velha à minha frente.

            Eu vasculhava a madeira da mesa, os riscos, os entalhes, marcas de tempos imemoriais, tempos de Eulália. De vez em quando olhava para ela. Imaginava-a à luz de vela e lampião. Torcia para que a velha deixasse a sala por alguma razão. Queria ficar a sós com Eulália. Então a velha gritou uma ordem qualquer à cozinheira, depois se levantou e foi à cozinha. Fixei Eulália nos olhos. Ela dominava a sala, seu olhar atravessava o janelão e se deitava sobre as terras que foram suas. Passei por seu esposo, um homem de olhos ferozes, empertigado dentro de um jaquetão escuro. Eulália estava quase de perfil. Olhos negros, cabelos fartos, longos e negros; olhos grandes, sonhadores, pestanudos. Devia ser muito jovem. Que cheiro teriam seus cabelos? Gostaria de sentir o cheiro daquela mulher. Cheiro de tecido ela teria. Era muito pano a cobrir-lhe o corpo. E, sem dúvida, farfalhava pela casa. Ouvi o farfalho das roupas de Eulália. Ela andou por entre aqueles móveis, foi à cozinha dar ordens como a velha fazia agora. Devia cheirar a talco também. E, tal qual agora, faria um calor infernal naquele Centro-Sul fluminense. Haveria um leve perfume de suor, uma sutil ardência no pescoço comporia seu aroma de fêmea. Seu nome seria Eulália? Pareceu-me um nome digno e apropriado para aquela mulher de olhos loquazes.

            ‒ O senhor aceita um café?

            A voz pastosa da velha me arrancou dos sonhos.

            ‒ Aceito sim.

            Após o café agradeci e me despedi da velha.

            ‒ Gostou do quadro?

            ‒ Gostei. A senhora sabe quem foram essas pessoas?

            ‒ Não, quando meu marido comprou a fazenda esses quadros já estavam aí.

            A terra da estrada tinha um tom rosado na luz difusa de começo de noite. Eulália não saía do meu pensamento: como puderam deixá-la? Eu pisava no acelerador e atrás do carro imensa nuvem de poeira me perseguia. Pesquisaria sobre ela, haveria de ter informações no cartório ou na igreja. Mas o tempo passou, eu fui embora e nunca pesquisei. Não voltei à região e não sei se a velha ainda vive. Será que, nalgum dia do remoto passado, Eulália e eu perambulamos de mãos dadas sobre as terras dos caminhos? Ou será meu coração e sua tendência romântica de imaginar coisas? Seja como for, Eulália me fez bem, às vezes aparece em sonhos ou em momentos de solidão e lembranças. É uma joia no meu tesouro esconso e é possível que só lá ainda exista. Talvez, na vida, as melhores coisas que acumulamos sejam assim, feito Eulália: impalpáveis.

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