CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

27/04/2021

15:30:18

COISAS DE ONTEM

COISAS DE ONTEM
Ouço um chamado da pequena rua onde moro, é o vassoureiro: “vassouuuuuura, vassoureeeeiiiiro”. Ele não grita: vai repetindo seu apelo numa voz cava, alongando interminavelmente o “u” de vassoura e levando muitos segundos para terminar o “ei” de vassoureiro. O tom é lúgubre, sai das profundas da garganta. Vou à janela e vejo o homem com um feixe de vassouras ao ombro; em uma das mãos carrega um longo cabo...

. ...É negro, magro e muito alto; com aquele cabo na mão parece um massai com sua lança. Caminha devagar, sem parar seu triste pregão, ouvidos e olhos atentos a algum possível freguês. Lembra-me de outro vassoureiro de tempos passados, um português de grandes bigodes e chapéu, cujo chamado para anunciar suas vassouras era idêntico ao do homem negro. São profissionais em vias de extinção, os vassoureiros, os afiadores de facas, os funileiros, os vendedores de pirulito a bater uma alça de metal na madeira para chamar a criançada... são coisas que vão ficando ontem. Lá na rua onde eu morava, todas as tardes passava a carroça da padaria puxada a burro e guiada por seu Penha. Percorria pachorrentamente as ruas do bairro. Além de vender os pães, seu Penha gostava de uma prosa com um e com outro, permitia que a criançada subisse na carroça e que o burro andasse como bem entendesse. Quase sempre seu Penha dava uma parada em frente à casa do seu Ari. Enquanto o burro pastava os tufos de capim nos cantos da calçada, os dois conversavam. Seu Ari tinha um caminhãozinho tocado a manivela. Virava o motor na base do muque. A gente gostava de ficar em volta, querendo “manivelar” também: ‒ Sai fora, menino, fica longe! Isso dá uma lambada danada! – prevenia seu Ari.

            Seu Ari era dono da leiteria. Todos os dias as mães mandavam os garotos comprar leite. O leite ficava em grandes galões guardados em geladeiras. A gente botava a leiteira sobre o balcão e a mulher do seu Ari, uma megera de bigodes e cara amarrada, retirava o leite do galão com uma concha e enchia a leiteira. Havia dias que todos reclamavam que o leite estava com gosto esquisito. Diziam que seu Ari botava alguma coisa para fazer o leite render. Isso sempre dava confusão. Donas de casa mais exaltadas iam reclamar e saía um bate-boca danado com seu Ari e a mulher dele. A coisa descambava para o lado pessoal e, no meio de ofensas e gritaria em que se tomava partido de um e de outro, todo mundo acabava sabendo de coisas cabeludas das vidas de todo mundo.

            Uma tarde, quando voltávamos da leiteria, um menino fez uma coisa impressionante. Tirou a tampa de sua leiteira de alumínio e girou a leiteira com tanta velocidade que o leite não derramou. Eu achei aquilo uma beleza. No dia seguinte, ao comprar o leite, tirei a tampa e girei a leiteira com força e velocidade, mas minha leiteira era de plástico e a alça se soltou. A leiteira voou feito uma bomba para dentro da leiteria, passou rente à cabeça da mulher do seu Ari e explodiu na parede, dando um banho de leite na megera e no seu filho, um cara mais velho e mais forte do que eu. Ele saltou o balcão e tentou me pegar, mas não conseguiu; quem me pegou, e no chinelo, foi minha mãe.

            Ainda hoje percebo o arzinho gelado da leiteria, resultado das aberturas constantes da grande geladeira onde ficavam os galões de leite. Tempos depois, o filho do seu Ari, aquele que quis me dar umas porradas, namorou a Dulce, que brincava de guerra de mamonas com a gente, mas cresceu, passou a usar minissaia e se tornou a musa das solitárias façanhas eróticas de todos os garotos da rua. Dulce virou namorada do filho do seu Ari e não deu mais bola para a gente, pois mulher costuma gostar de homem mais velho. Todas as tardes namoravam no portão. Mas uma manhã a rua acordou com os gritos da mãe da Dulce: ela havia fugido com o filho do seu Ari. Naquele tempo tinha disso, moça fugir com o namorado. Eu não lembro o final dessa história, mas lembro que naquela manhã mesmo demos umas pedradas no grande sino do portão da casa do seu Hélio, só para ele sair lá de dentro para ver quem chamava e a gente sair correndo debaixo dos xingamentos do pobre homem. Pois era naqueles tempos que passava o vassoureiro português de bigodes e chapéu anunciando suas vassouras numa voz igualzinha ao do negro massai que passou embaixo da minha janela.

            

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