CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

21/03/2021

19:46:56

A ILHA DO FAROL

A ILHA DO FAROL
Renato, índio véio, estou indo BR-101 arriba, na direção norte, para uma fazenda onde tem gado para tanger, ferrar, engordar e matar. Lá fora no asfalto, os motoristas brasileiros fazem coisas inacreditáveis com seus bólidos, posso ver pelo para-brisa do ônibus aqui do meu assento. Mas agora estamos parados no meio do nada, há um acidente feio na estrada....

 ...O tempo passa. O sol bate sobre o ônibus feito chinelo de madrasta má. Diante da minha janela espraia-se a planície monótona de cana-de-açúcar deste norte fluminense. De ambos os lados da estrada vejo uma linha verde uniforme e o eito coberto de palha e restos de cana recém-cortada. Sopra a brisa sobre a linha verde e as cristas se movem quase imperceptivelmente. Parece uma onda parada no ar, um “caixote” estático que não vai se quebrar. Quilômetros a minha direita fica o oceano, e, mais ou menos a leste, a ilha. Eu não devia estar neste ônibus indo para o interior, devia estar no mar, levando lambada de onda.

 Lembra, índio véio, que o velho Aroldo nos levou em sua voadeira? Correu conosco aqueles cabeços ameaçadores em pleno mar, mostrou-nos lajeados e o trecho da ilha onde tinha matado um tarpão, que do norte do estado para cima chamam de camarupi. Depois acampamos na ilha, nas ruínas do que foi um colégio para os filhos da pequena guarnição da Marinha então residente por lá. Mas já não havia guarnição: apenas o faroleiro, o cabo responsável pelo lugar, suas esposas e o cão “Farusco”. A água estava clara e no mesmo dia da nossa chegada fizemos boa pescaria. À noite as mulheres prepararam as lagostas e os badejos que levamos para eles, e ficamos de conversa, comendo badejo frito, nacos de lagosta cozida na água e sal e bebendo a única coisa que tinha para beber, o enjoativo licor de cacau servido pelo faroleiro. Fazia uma esplêndida noite de mar calmo, muitas estrelas e brisa mansa. Mais tarde chegou do mar um velho pescador que armara suas redes para recolhê-las pela manhã, falou das lajes repletas de meros que só ele conhecia e dos cações que rondavam as pontas rochosas. O faroleiro contou de sua vida de perambulações por essa longa costa brasileira, morando uns tempos no sul e outros no norte, pois a solidão é tanta que, de tempos em tempos, é preciso trocar os faroleiros de lugar para variarem a solidão. “Farusco” se deitara junto a nós. Pertencia ao cabo, mas ficou nosso amigo e nos seguia por toda parte.  Nossa conversa corria solta, girava pelo mar, pelas grandes pescarias de antigamente e pelos mistérios da ilha. Na manhã seguinte mergulhamos nos costões e vasculhamos os lajeados sob as pontas rochosas onde rondavam os cações. Éramos jovens arrojados. Vou te contar uma novidade, índio véio: acho que a ilha foi o cenário usado por Monteiro Lobato para o conto Os faroleiros. Bom, não é lá novidade que se apresente, e não sei por que acho que Lobato usou aquela ilha como cenário, deve ser por causa das minhas literatices e dessa mania de ficar imaginando coisas.

            O ônibus começou a andar. Entra uma brisa quente pela janela. De um e outro lado da estrada há aquelas ondas verdes paradas. O ônibus passa entre elas feito um monstruoso Moisés metálico. Meu pensamento fica na ilha, na emoção de enfiar a cara no azul do oceano, naquele tempo de nossas vidas. Ando afastado do mar... “...do mar que não dá coisa alguma, exceto golpes rudes e por vezes a oportunidade de sentirmos nossa força...” Hoje a ilha vive rodeada de navios e rebocadores que obscurecem a luz do dia, mancham o azul do mar e perturbam o escuro das noites com seus holofotes. Além disso colocaram torres no oceano e até o vento traz consigo estranhos odores. Talvez nem mesmo os cações queiram rondar as pontas rochosas. Guardo comigo aquelas águas claras, a mansidão dos dias tranquilos e o sossego das noites isentas das gentes, quando a única luz a devassar o negrume do oceano era a do velho farol, que não incomodava o brilho das estrelas.                    

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