CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

20/01/2021

15:14:08

VIAGENS INFANTIS

VIAGENS INFANTIS
Às vezes, de manhãzinha bem cedo, a névoa descia e toldava nosso vale. O ar ficava úmido e frio. Eu vestia minhas calças americanas, as botas e uma camisa grossa de flanela quadriculada. Ajeitava na cinta o cantil de alumínio, a faca de cozinha e pendurava a atiradeira no pescoço. Saía às escondidas dos meus pais, que ainda dormiam. Ia para minha floresta à beira do rio. Lá eu era o senhor das trilhas e dos esconderijos...
...Vagava como sombra e gostava de aspirar fundo o perfume resinoso dos pinheiros. De um lado a outro das trilhas belas e resistentes teias de aranha capturavam descuidadas gotas do orvalho noturno e elas brilhavam feito diminutos cristais, formando com as teias fina gaze de seda rendada. Eu vagueava distraído, fascinado pelas belezas, percebendo os aromas da mata e as cambiantes colorações do verde ao sopro de uma brisa repentina. Mas não me descuidava. Havia perigos. Índios bravios com suas machadinhas, piratas a subirem o rio em chalupas. Eram as personagens das histórias dos meus livros, amigos e inimigos constantes à minha volta. Com eles, a mata era um mundo. O rio bordejava a mata. Podia ser atravessado a vau nos meses de inverno. Às vezes eu caminhava à beira d’água, sentindo seu odor de lama, escalando suas barrancas arenosas ou abrindo caminho com minha faca pelo capim alto e laminoso das margens. Num trecho, no alto de uma barranca, havia um areal. Ali eu me deitava a pensar no rio infinito, a olhar o céu branco e úmido. Conversava com os meus mais fiéis amigos: o Sol e o Vento. Contava-lhes das minhas aventuras: um dia eu acamparia nas florestas de pinheiros do Canadá, exploraria a Ilha de Man e seguiria a rota de David Balfour, conheceria as terras da Guerra do Paraguai que meus avós contavam, atravessaria o Llano Estacado e as planícies dos peles-vermelhas. Era tão doce e bom que eu podia adormecer ali, embalado pelo gorjear do rio e pelas vozes da floresta. Quase sempre o meu amigo Sol vinha me despertar. Pedia licença ao Vento, afastava as nuvens e pousava em mim seus olhos claros. Eu me levantava e voltava para casa. Meu pai já havia saído, minha mãe tomava café.

─ Foi aonde, menino?
─ Por aí.
E me trancava no quarto, cheio de luzes nos olhos. Feliz como quem chega de uma viagem de sonhos.

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