Por: CARLOS ROSA MOREIRA - 18/07/2025 13:58:13
Não fui acostumado a descansar acarinhado pelo abraço de uma rede, mas tem ganchos na varanda e comprei a rede para o meu filho que veio passar uns dias. Eu mesmo nunca usei, a não ser hoje cedo. Pendurei a rede e fiquei balangando...
...Soprava um ventinho fresco e o pensamento vagava docemente ao ritmo daquele vaivém gostoso. Então o celular deu sinal de que entrava mensagem. Alguém enviou um clip dos Marmalades: Reflections of my life, uma canção triste, na época eu nem gostava dela não. Surgiu madeleinemente e juntou-se à rede, criando o tema do meu momento contemplativo.
Veio a lembrança dos bailezinhos das faculdades, nos clubes, nas casas de família, moda nos fins dos sessenta e início dos setenta. E trouxe a imagem dela numa noite no baile do Regatas: a pele queimada pelo sol da primavera, o vestido vermelho, os cabelos soltos e o olhar de serena expectativa.
Conhecíamo-nos de vista. Passávamos um pelo outro nas calçadas e nos olhávamos. Seu olhar castanho penetrava meus olhos e batia lá no coração. Para mim, era a mais bonita menina do bairro. E eu, um adolescente problemático. Não fosse a façanha de conseguir escapar de mim mesmo, não imagino o que teria me acontecido naqueles tempos. Tinha de criar uma personagem para relacionar-me com as pessoas, pois eu mesmo não me suportava. Fazia de tudo para parecer sociável, sem sê-lo, o que resultava em desastres. Passei um tempo com a convicção de que o melhor seria a Legião Estrangeira. Apenas entre meu grupo de amigos conseguia ficar, às vezes, um pouco mais leve. Tinha consciência das minhas dificuldades.
Elogios quase me ofendiam, os olhares femininos geravam desconfiança. Mesmo as mais próximas amizades só conheciam as personagens criadas. Passar por aquela menina linda de profundo olhar escuro deixava-me quase atônito. Ela parecia essas moças dos rótulos dos frascos de lavanda. Sempre com vestidos leves, cabelos soltos, expressão serena, maravilhosamente feminina. Um veleiro de belas, harmoniosas, perfeitas linhas. Barco seguro para uma viagem de longo curso. Viagem sem necessidade de porto, viagem profunda sem volta. Seria eu o capitão?
Naquela noite, no baile do Regatas, de repente, como se as pessoas tivessem sumido, vi-me diante dela. Ela me olhava, linda no vestido vermelho. Eu não tinha a calçada para seguir em sentido oposto, ou a tirava para dançar ou batesse de vez em retirada. Aí a música parou. Dei graças a Deus. Mas em segundos recomeçou com os acordes melancólicos e dançantes de Reflections of my life. Sorri com um movimento de sobrancelhas, ela fez o mesmo, e veio quando lhe estendi a mão. Dançamos, conversamos. Naquele instante bastava ultrapassar a amura e subir ao convés. O leme seria nosso, o vento bom já se aproximava pelo viés entre a popa e a vela grande. O veleiro estava prestes a largar.
Não, eu não sabia de muitas coisas. Era um garoto bobo e complicado. Não podia partir mundo afora, só conhecia meu musgoso e sombrio mosteiro. Após a música, bati em retirada.
Passados tantos anos, às vezes a vejo pelas ruas. Tem um belo e seguro ar maternal de esposa. Casou-se com seu primeiro namorado. Nunca mais nos olhamos, continua muito bonita.
É tão doce o balanço da rede. Isso pode se tornar um vício... Terminou a música, sinto só o vento; fechando os olhos, tenho a impressão de estar ancorado num portinho seguro. Se Proust conhecesse rede, teria mais tempo perdido para buscar.