Por: AYRTON DIAS - 06/04/2026 17:09:40

O TREM DO PASSADO - UMA HISTÓRIA ESQUECIDA

O trem deixou de circular em Nova Friburgo em 15 de julho de 1964

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Existem vários registros de opções governamentais equivocadas que prejudicaram os rumos da nação. O sucateamento da malha ferroviária durante a gestão do ex-presidente Juscelino Kubitschek, por exemplo, foi um erro histórico!

Na época, atendendo aos interesses da poderosa indústria automobilística, o governo federal priorizou a opção pelo modal rodoviário em detrimento do transporte ferroviário, determinando que fossem extintas linhas e ramais em um processo totalmente contrário ao adotado por inúmeros países desenvolvidos. Foi o fim de um importante período para a economia brasileira onde o trem protagonizava uma era do pleno progresso e desenvolvimento.

Muitas vezes não percebemos, mas constantemente nos deparamos com resquícios de parte da história e não nos damos conta disso. São elementos, arquitetônicos ou não que em muitos casos, mesmo não tendo sido preservados, resistiram ao tempo perpetuando uma era.

A passagem do trem transformou a antiga Vila de Nova Friburgo em um município, gerando progresso e desenvolvimento. Segundo a historiadora Maria Janaína Botelho, autora do livro "O Cotidiano de Nova Friburgo no final do Século XIX - Práticas e Representação Social", o trem interferia no cotidiano e na sociabilidade das pessoas da cidade. Para ela, a linha férrea desencadeou um grande desenvolvimento: “O fato de Nova Friburgo possuir uma linha férrea, associado a outros fatores, foi um fator determinante para o investimento de empresários alemães em indústrias têxteis e de artefatos de couro no município.”

UMA VIAGEM NO TEMPO


Originalmente, circulavam pela Estrada de Ferro Cantagalo apenas trens de carga, mas em função da grande demanda de pessoas que fugiam das epidemias de febre amarela durante o verão no Rio de Janeiro, foi também disponibilizado o trem de “passeio”. O memorialista Mário Saraiva, em um dos seus artigos publicados no Jornal “A Voz da Serra", apresentou o seguinte relato:

“O trem de passeio saía no sábado à tarde da Estação de Maruí, em Niterói, e regressava na manhã de segunda-feira. Era o trem dos veranistas. Como durante algum tempo os lugares não eram fixados, havia muito sarilho, e a confusão era frequente. Alguns marcavam lugares para os retardatários, mas passageiros indignados com a ‘marcação’ removiam os ‘embrulhinhos’ e sentavam no local. Os retardatários ao chegarem reclamavam e muitas vezes facas e revólver eram apontados durante a discussão. Logo que o trem partia, os viajantes envergavam o guarda-pó em razão da poeira que vinha do leito da estrada de chão batido. Nuvens de poeira entravam pelos carros do trem de modo assustador e em razão disso, fechavam-se as janelas, apesar do calor causticante. Na baixada fluminense a paisagem era de casas arruinadas, terrenos alagados, a população alquebrada e macilenta em razão das doenças que grassavam naquela localidade. Duas paradas eram aguardadas com ansiedade: a de Porto das Caixas e a de Cachoeiras de Macacu. Na primeira estação, vendedores pressurosos expunham suas mercadorias como laranja seleta e bahia, tangerinas, cajus, cambucás, sapotis, fruta do conde, banana, entre outras. Porém, era a chegada à estação de Cachoeiras de Macacu o momento mais aguardado e o fim da tormenta da baixada fluminense.

Essa estação era bem movimentada. Todos os passageiros desciam para saborear as frutas e as afamadas empadas de camarão e palmito amargo. Vendedores de passarinhos entravam nos carros apregoando os rubros tiês e sabiás. A choradeira dos meninos era intensa quando os pais recusavam a compra dos pássaros e os vendedores só deixavam o carro quando o trem partia. Na subida da serra a temperatura mudava e um ar sereno e fresco, embalsamado pelo frescor da mata, entrava pelos carros do trem. Nesse momento, os inúmeros doentes que procuravam Nova Friburgo em busca da cura ou alívio para os pulmões pegavam um agasalho, enquanto outros, embalados pela docilidade do clima, cochilavam. Cessava a mastigação dos alimentos e o chão do trem era um amontoado de papel e de cascas de frutas. O bem-estar era geral. Quando se chegava ao fim da serra, mudava-se a locomotiva, pois para subir as montanhas o trem necessitava de uma cremalheira. Iniciava-se a descida rumo a Nova Friburgo. Quando se chegava à estação da cidade a saída do carro do trem era um verdadeiro atropelo. Boa parte da população friburguense se dirigia afoita até a estação para assistir à chegada do trem de passeio. Era um acontecimento social na cidade. Alguns iam esperar parentes e amigos, enquanto moças e rapazes corriam em peso envergando os seus melhores trajes para ‘ver e serem vistos’ no rendez-vous. As moças de chapéu e luvas e os rapazes com ‘roupa de festa’. Era o momento para o acerto das festas à noite ou no domingo.”


TRISTE FIM

O trem deixou de circular em Nova Friburgo em 15 de julho de 1964. Esse meio de transporte marcou para sempre as gerações que conviveram com ele. A desativação do ramal da Estrada de Ferro Leopoldina causou muita indignação!

O escritor Ordilei Alves da Costa, autor do livro "O Apito do Trem", nunca se conformou com a posição adotada pelo governo federal: ”Um dia essa ´miopia` político-administrativa chegará ao fim e o trem retornará. O Brasil é o único país do mundo que ‘condenou a morte’ o seu sistema ferroviário. Todos os demais modernizaram e ampliaram suas malhas. A Europa é toda interligada por ferrovias, com trens passando por dentro de cidades e por muitos cruzamentos em nível, praticamente sem acidentes. Ou seja, há perfeita harmonia entre os modais ferroviário e rodoviário e, claro, o beneficiado é o usuário”.

As vantagens quando se compara o sistema ferroviário com o rodoviário são expressivas em relação a segurança, economia e combate a poluição.

Uma pena que a infraestrutura do transporte em solo nacional não disponha de uma malha ferroviária compatível com a demanda necessária tanto para a logística no transporte da produção quanto para o desenvolvimento do setor do turismo.

É lamentável que um momento tão importante tenha ficado para trás. Infelizmente, em Nova Friburgo, o “trem do passado” se tornou realmente uma história esquecida!

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