Por: CARLOS ROSA MOREIRA - 04/03/2025 17:16:25

MOMENTO

Já rodei a casa toda. Tomei café, bebi água, liguei computador e fiquei na janela.

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Sou um turista nessa área. Sigo pelas calçadas imundas como se dormisse aqui todas as noites. Talvez naquele “Hotel Rodoviária”. Minha alma está frágil, não sei por que resolvi flanar por aqui. Teria sido mais prudente algumas doses de conhaque e uns goles de Fernet. Procuro fazer olhos comuns, de retinas já fatigadas por essas luzes e por esses desvãos escuros. Os bares estão cheios. Mesas e cadeiras se espalham até às ruas. Sinto cheiro de cerveja, de bueiro, de churrasquinho. Fora das luzes dos bares mulheres aguardam nas calçadas. Vagueiam, fumam. Nas fisionomias cansadas vejo desamparo, fastio, devassidão, expectativas. Há risos e ruídos nas luzes; há melancolia na escuridão. E sinto algo que me parece tenso e ameaçador.

O piano do Tom, no intervalo das estrofes, me faz imaginar um casal a passear de mãos dadas. Somos nós naqueles anos tão passados. Queríamos ir à Provence, conhecer os villages, admirar o Monte Sainte Victoire e olhar os campos de lavanda tentando fazer olhos de Cézanne.

Engraçado... Imaginar a sua felicidade tirou-me da tristeza. Vejo-a sorrir nesse sonhado sul da França e esqueço que talvez estivesse com o piemontês a tiracolo. Não importa, é bom lembrar o seu sorriso com esse jeito de levar as duas mãos à boca como se quisesse comprimir a emoção. Se foi à Provence, acredito que se lembrou de mim. É bom acreditar-se lembrado num momento de solidão e tristeza. Tenho vontade de dormir e sonhar com você, mas você já me fez bem, afastou um pouco essa melancolia enjoada. Sinto-me mais leve e penso em caminhar. Preferia que fosse sob o sol manso da Provence, mas será aqui mesmo, debaixo desse furibundo sol do verão brasileiro, que irá queimar minha pele e talvez transformar em cinzas a tristeza que faltou você espantar.