18/04/2016 - 08h23min - Autor: George dos Santos Pacheco

Felicidade clandestina

Felicidade clandestina

Estávamos na missa, eu entre os dois meninos, minha esposa fechando o quarteto na ponta direita. O padre lá no altar lendo o Evangelho, e você sabe, amigo leitor, criança não para quieta. Coisa de criança mesmo, mas é aquilo que incomoda em um momento de atenção. E eu suspirava, tentava conter a calma, censurava-os com o olhar e então, a obediência pronta e breve, seguida dos movimentos, ruídos com a boca, conversa entre irmãos…

Então, pensei, num momento de iluminação divina: Daqui a algum tempo, eles estarão maiores, e eu vou sentir até saudade desse agito todo. Lá na frente, quando eu estiver velhinho, isso vai dar saudade.

E foi então que um pensamento perturbador me surgiu: E quem me garante que viverei até ficar velhinho? Quem me garante que eu vou ter tempo de sentir saudade?

Meu peito apertou e senti uma grande angústia, ali mesmo, na igreja, durante a missa e sermão do Padre João Paulo. Quem poderia me garantir tudo isso? Ninguém, nem eu mesmo. As reflexões foram surgindo em sequência como o desenrolar de um novelo, a partir da perturbação que senti ao me dar conta de que o meu desejo de viver muitos e muitos anos pudesse não se realizar – e logo eu que tenho um medo terrível de morrer.

Eu sou apenas um, dentre muitos que esperam para sentir saudade, entre muitos que programam aquelas viagens com a esposa quando se aposentar, um mergulho na praia no fim de semana, que se prometem a andar de bicicleta com os filhos na próxima folga. Isso é tudo muito cliché, mas a felicidade é clandestina nessa nossa jornada. Está bem aqui – você não viu? – junto aos aborrecimentos do trabalho, às nossas agruras do dia a dia, aos problemas de saúde, ao carro que quebrou bem na hora de levar as crianças à escola.

Como somos pequenos, não é mesmo? Não temos domínio nem sobre a própria vida. Então beije, abrace, ame e diga que ama, se divirta, viva e deixe viver. Porque a vida passa num susto e a felicidade não deve esperada. Ela deve ser vivida.

georgespacheco@outlook.com

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