17/03/2016 - 21:31h - Autor: George dos Santos Pacheco

A coisa

A coisa

“Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”

Certa vez, Baco (deus romano do vinho, da ebriedade, e dos excessos) deu por falta de Sileno, seu pai de criação, que andara bebendo e, acabou se perdendo, sendo encontrado por alguns camponeses que o levaram ao seu rei, Midas. Midas reconheceu-o, e cuidou dele durante dez dias, devolvendo-o são e salvo a Baco. Como recompensa, a divindade ofereceu, então, o direito de escolher o que desejasse e Midas pediu “todo ouro em que pudesse pôr as mãos”.

O mito de Midas, embora fale precisamente sobre ganância, retrata a materialização, a coisificação. A sociedade contemporânea vive tempos em que tudo e todos são tomados como coisa, objetos de pertença ou coisa parecida. Tudo o que o homem toca se torna coisa, assim como Midas transformava em ouro tudo em que pudesse pôr as mãos. A importância não está mais no bem em si, mas na posse dele, e aquilo que não for um objeto, nós o transformamos em um.

Está tudo coisado, coisificado. Refletindo sobre o assunto, nos perguntamos onde isso tudo vai parar, mas suspiramos, e voltamos à nossa vida, à nossa realidade, às nossas preocupações, à nossa vã filosofia. E não reparamos que também nos tornamos coisas.

Isso é bem típico do individualismo, do materialismo a que somos estimulados a adotar como ideologia de vida – e sem reclamar, na verdade, nos fizeram gostar de ser assim: desconfiados uns dos outros, gozando o consumismo, protegidos numa armadura que arremeda a segurança.

“Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”, foi nisso que nos tornamos. Tudo é coisa, somos coisa. Eu, você, nossos pais, irmãos, esposos, filhos, amigos e principalmente os mais distantes, gente que você só viu nos jornais, nas notícias policiais, mais uma vítima do tráfico de drogas, de balas perdidas, da saúde pública… Você dá de ombros: não importa, foi apenas mais um (e você nem conhecia). Um número, uma coisa.

 Nossos carros, nossa profissão, a cerveja do final de semana, e a rede social… tudo que o homem toca se torna coisa. Tudo e todos. Esta última, então, contribuiu sobremaneira para a coisificação de tudo: aproximou quem estava longe, e distanciou quem está perto. E nós, caros amigos leitores, passamos a tratar tanto os de lá quanto os de cá como coisa.

A saúde, a educação e a segurança pública e inclusive aqueles que dependem deles, são todos coisa. Não é assim que você se sente em um hospital público? E tudo parece conspirar para que sejamos cada vez mais como o rei Midas, numa inversão de valores sem precedentes. Um aparelho celular, por exemplo, em pouco tempo o tornamos obsoleto e somos impelidos a trocá-lo; e a gente passa a achar que nossos carros também não atendem mais a nossas necessidades, e também nossas roupas, nossos perfumes, namorada, noiva ou esposa…

Onde isso tudo vai parar?

Se você entender que sua TV aberta não atende mais às suas necessidades, você dá um jeito de ter TV a cabo; se a saúde pública não está bem, você contrata um Plano de Saúde; se a educação pública anda mal das pernas, você matricula os filhos numa escola particular; se a segurança pública não dá conta da marginalidade, você instala alarmes, coloca a casa no seguro; se o transporte público está ruim, você compra um carro. É garantia de status poder ter tudo isso. Tudo culpa da coisa (inclusive a proposital perda da qualidade de tudo acima).

O que era para ser coletivo, deixa de ser. Você, caro leitor, vai se preocupar com a qualidade da TV aberta, da saúde, educação, segurança e transporte público, se você paga por um serviço particular? Não, não vai. E não faça essa cara feia. Não vai porque isso não é mais problema seu, é de quem depende deles.

E somos cada vez mais estimulados a isso: a comer sem ter vontade, a comprar sem necessidade, a beber nos finais de semana, a se automedicar, a baixar filmes na web, a contratar tudo o que puder – mesmo pagando impostos e financiando o serviço público do qual você tem direito. Somos conduzidos ao individualismo e materialismo como gado para o abate. Se por acaso você não puder pagar por esse conforto que você merece (e fodam-se os outros), você coloca tudo no cartão de crédito com juros baixíssimos (!). E assim nos espalhamos mais e mais.

Por culpa da coisa, esquecemos dos escândalos de corrupção, porque já foi ao ar o reality show mais famoso da televisão brasileira; porque é Carnaval e o importante é ser feliz apesar de tudo; e depois do maior espetáculo da Terra tem o campeonato de futebol, e depois vêm as Olimpíadas. Que importância tem todo o resto? Temos mais com que nos preocupar, não é mesmo? Uma epidemia de dengue, por exemplo. A preocupação não é com o coletivo, mas com a própria pele. E enquanto isso o corrupto sai da tela da TV.

Onde isso tudo vai parar?

Midas se arrependeu do pedido e implorou a Baco que lhe retirasse o dom – um presente escolhido por ele mesmo; resta saber se faremos como ele, ou se vamos perpetuar essa coisificação, se vamos continuar alimentando a coisa. E a gente se pergunta: onde isso tudo vai parar?

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