15/11/2020 - 09h10min - Autor: Carlos Rosa Moreira

Universitário

Universitário

Meu primeiro estágio como universitário foi no Zoológico do Rio. Corria o mês de agosto e eu achava agradável saltar do ônibus no Largo da Cancela e caminhar até a Quinta da Boavista. As manhãs eram amenas, as ruas arborizadas e havia as meninas do curso Normal, a passar em bandos com suas minissaias azul-marinho. Atravessava os portões da Quinta e transportava-me no tempo. A História sobrepunha-se ao descaso e ao aperto do anel urbano...

            ... Ao chegar, minha primeira função era a ronda. Consistia essa ronda em percorrer todo o Zoo, observar animais e recintos e anotar qualquer coisa de interesse. Eu gostava daquilo. Fazia-o com prazer.  Caminhava pelas alamedas a examinar os animais em suas moradas. Adquiri verdadeira obsessão por encontrar os lagartos. Eles se entocam no inverno e só aparecem ao iniciar a temporada mais quente. Foi com orgulho que descrevi o aparecimento precoce de um deles naquele ano. Bichão com bem mais de metro aquecendo-se ao sol. Depois passeou pré-historicamente a lançar a língua intermitente para sondar o mundo. Também gostava de parar onde viviam os marrecos. Colocava a mão na tela e aguardava o enfezado marrequinho irerê, que sempre vinha tomar satisfações. Vinha em cores múltiplas, o pescoço agressivamente esticado, a cabeça baixa com os trinados característicos. Deixava a caneta para ele bicar.

            Perambular pelos caminhos do Zoo podia ser leve para mim, mas só se deixasse o espírito flanar despreocupado ou se tivesse o olhar exclusivamente técnico, coisa que jamais consegui. Acreditava ver tristeza nos olhos de muitos animais. Havia os que viviam em recintos espaçosos e tinham companhia, como as girafas, os bubalinos, os cervos, os elefantes e os pequenos pássaros. E ainda as cobras e os jacarés em seus habitat de pequenas selvas alagadas e sinistras. Mas observava o solitário condor dos Andes em sua jaula sombrosa. Ele me olhava acima ou através da minha cabeça. Quase sempre estava com as asas abertas, de pé sobre o recipiente plástico da ração, que emborcava e transformava no ponto mais alto da jaula. Daquela pequena altura eu acreditava que ele viajava por altitudes inconcebíveis. Olhava-o e lembrava-me da terrível passagem do desmoronamento das galerias subterrâneas de “Germinal”, quando sofri mais pelos cavalos do que pelos homens.

            Alguns animais poderosos viviam com seus pares, e isso certamente aliviava o cativeiro. Era assim com os leões, tigres e vários macacos. Com exceção do chimpanzé Tião, que apanhava de sua irascível companheira Cafona e tinham de ficar separados. As onças viviam solitárias. Às vezes deitavam-se ao sol, de barriga para cima, a rolarem de um lado a outro como fazem os gatos. Outras vezes permaneciam quietas na posição de esfinge, a olharem fixamente para mim. E, costumeiramente, caminhavam para lá e para cá, apressadas, tensas e ameaçadoras a mostrarem os dentes. O belo e agressivo lince caracal enrugava o focinho exibindo os caninos, emitindo uma espécie de chiado de poucos amigos.

            Por volta das dezoito horas eu ia embora. Ali começava, na natureza, a faina dos grandes predadores e a expectativa desesperada das presas. Já se ouviam os urros e o arfar dos felinos e uma certa movimentação cautelosa dos herbívoros. Era a natureza a impor-se sobre o restrito mundo de cimento e ferro criado pelos homens. Enquanto caminhava, ficavam às minhas costas o Zoológico e o Palácio. Eu percebia a tarde diminuir a intensidade das cores, calar os pássaros, trazer um misto de dever cumprido e melancolia.


                                                         Do livro "Caminhos Invisíveis", Ed. Parthenon, 2017
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