11/10/2020 - 08h45min - Autor: Carlos Rosa Moreira

Caminhos de Paris

Caminhos de Paris

Acho que a primeira vez que vi uma mulher nua foi aos nove ou dez anos de idade. Naquele tempo, não bastava ir à praia para ver mulher pelada; uma criança como eu só teria essa oportunidade em foto ou pelo buraco da fechadura. A que vi estava na página de uma revista, deitada sobre a cama ou sommier (provavelmente, sommier), completamente nua...

...Os braços dobrados acima da cabeça, os bicos pequenos dos seios perfeitos, a sugestão de pelos nas axilas e os pelos discretos do púbis. Num relance pensei que fosse foto, mas logo vi que era pintura. Entretanto havia algo naquele desenho de mulher que prendeu meus olhos infantis, e não foi apenas o fato de estar nua. Eu não soube identificar naquela idade, mas muitos anos depois, admirando-a numa outra reprodução, descobri o que era. Era, simplesmente, a sensualidade da modelo. Ela se abandonou ao artista, lânguida feito uma gata. Os cabelos negros e curtos, a sensual boca carnuda vermelha, os olhos cerrados. Seus olhos não aparecem, são manchas negras no rosto bonito, mas me induzem a vê-los delicadamente fechados. Lasciva, docemente apática, assim me parece aquela mulher eternizada por Amedeo Modigliani. Um felizardo com as mulheres o Modi! Mas, talvez, só com as mulheres. Muitos anos depois assisti pela televisão “Os amantes de Montparnasse” e imaginei que a mulher do quadro seria Jeanne Hébuterne, mas li em algum lugar que Modigliani jamais a retratou nua.

             Numa viagem a Paris segui os passos do pintor por Montmartre, Montparnasse e pelo Quartier Latin. Terminei minha caminhada na quase escondida rue Amyot, que penso fazer parte do território que minha amiga parisiense Eliane chama elegantemente de “Le Continent de La Contrescarpe”. Eliane deixou Paris, as ilhas dos mares fluminenses e escolheu viver entre os buritis do Centro-Oeste brasileiro, fixando pegadas por fascinantes veredas do mundo.

            Foi no número 8 da rue Amyot que a adolescente Jeanne deu fim à vida, após ter visto o cadáver de Modigliani, comido pela tuberculose, estendido sobre o mármore  num hospital. Parei na frente do prédio, no meio da rua que pode ser atravessada com dois ou três passos. Lá de cima, de uma das janelas do quinto andar, jogou-se Jeanne Hébuterne, carregando no ventre, em final de gravidez, o segundo filho de Modigliani. Andei paralelamente à fachada do prédio, parando diante de cada uma das janelas. Em algum ponto daqueles onde parei ou em sua proximidade, caiu o corpo da jovem Jeanne. Provavelmente estava descalça. Contou-me um médico legista que os suicidas que se atiram das janelas, geralmente, o fazem descalços. Olhava o prédio, que não devia ter mudado muito naqueles quase noventa anos, e me lembrei de procurar junto à porta de entrada a menção ao fato. Em cada local da cidade onde aconteceu algo historicamente marcante, a prefeitura de Paris coloca uma placa com nomes, datas e informações básicas. Mas nada havia sobre Jeanne Hébuterne. Eu trazia comigo uma pequena flor amarela colhida no Jardin de Luxembourg. Coloquei-a no meio-fio, um pouco à esquerda da porta de entrada para quem olha o prédio de frente. Levei meu pensamento a ambos, trágicos e belos Jeanne e Amedeo, e os vi de mãos dadas.  Talvez em um dia de primavera assim tenham passeado pelos caminhos do Jardin de Luxembourg.


Crônica do livro "Caminhos Invisíveis", Ed. Parthenon, 2017.

 

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