05/10/2020 - 09h02min - Autor: Carlos Rosa Moreira

IMORTAIS

IMORTAIS

Não havia nada nas noites daquela cidadezinha. Eu voltava para o hotel quando o celular tocou e me deram a notícia. Foi ruim, um momento terrível, mas, que jeito? Ainda caminhei uns passos, então lembrei de convidá-lo para tomar uma cerveja. Tinha um boteco, o único ainda aberto. Osmar aceitou na hora...

            ─ Uma cerveja e dois copos ─ pedi ao rapaz do boteco.

            ─ Dois copos?

            ─ É. Dois copos.

            A cerveja veio e servi o Osmar e a mim do jeito que gostamos, com um bom colarinho. Ele puxou o cigarro de sempre, eu peguei um charuto.

            ─ Você tem de fumar um desses, Osmar. Pelo menos, não traga.

            ─ Bobagem, prefiro os meus ─ e terminou a frase com uma tosse daquelas.

            Então conversamos sobre velhas coisas, as coisas das quais ele mais gostava. Falamos de comida de boteco, de roça e sertão, do bem que a chuva mansa faz às folhagens, do perfume das leiras ao cair a tarde, dos nossos filhos. Cheguei a iniciar uma conversa sobre assombração, mas desconversei, não seria de bom tom. Um bêbado tentou sentar na cadeira do Osmar.

            ─ Eh! Sai pra lá, meu chapa, não tá vendo o meu amigo aí!

            O bêbado arregalou os olhos para mim e saiu de banda.

            Osmar e eu ainda conversamos muito. Só fomos embora porque o boteco fechou. Ele me levou até o hotel e depois sumiu na noite das calçadas. Foi um dia triste aquele, mas, pelo menos, passamos umas horas de conversa, né companheiro?

 E temos conversado muito nesses “bares da vida”. Tem garçom que traz a cerveja preferida do Osmar antes de a gente pedir. Imagine quando estivermos juntos de vez, hein Osmar? Mas... será que vai ter cerveja?

                                                                        *

            Ah, meu caro Chico, hoje me lembrei de você. Você sabe, faz tempo que deixei as montanhas. Da última vez, na Travessia, você estava comigo, não estava? Tenho certeza de que estava. Mas lembrei de você por outro motivo, foi por causa de uma loira que subiu as escadas na minha frente, num prédio aqui no centro da cidade. Chico, parecia aquela loira do Pão de Açúcar... Lembra?  Foi na abertura da temporada de 1989, quando escalamos pelo Costão. Estávamos no “Jacó”, respirando um pouco, quando surgiu a loira. Passou por nós como o vento, pôs um pezinho aqui, outro ali, abriu “spagat” e, num átimo, transpôs aquela “escadinha” de pedra e sumiu escalando paredão acima. Nós ficamos embaixo, de bocas abertas com as cordas nas mãos, apreciando a técnica da loira e o espetáculo que o short largo ofereceu.

            Depois daquele dia no Pão de Açúcar ainda subimos muitas montanhas. Subimos, não; eu subi e encontrei você lá em cima no ar frio e cristalino que amamos. Faz tempo, Chico, que não pego uma trilha ou desafio um paredão, mas qualquer hora o encontro aí nas alturas, nessa relva baixa e perfumada onde as árvores não crescem e onde as águas congelam no mês de julho. Qualquer hora, companheiro...

                                                                                                                                                                                                        *

            Roberto, amigo véio, hoje eu fui pro mar. Fazia tempo, rapaz. Chamei e esperei, mas você não apareceu. Ou estava lá e eu não vi? Feito aqueles cações de Arraial que nadavam invisíveis entre a gente, lembra? Bons tempos, né Roberto? Hoje havia ondas perfeitas em Itacoá, mas a água estava tão clara que preferi ficar por aqui. Há três dias um sudoeste trouxe boas águas lá do oceano, “água roxa”, como gostamos. Refiz nossos percursos, atravessei os lajeados e depois me deitei naquela pedra lisa da ilha. Havia tainhas na superfície e badejos no fundo, mas eu só desejava nadar. Puxei assunto com você na pedra, como fazíamos ao retornar dos mergulhos, mas você não respondeu. Um solitário pescador de linha chegou a se assustar comigo, pois eu falava, falava e ria muito de uns fatos engraçados acontecidos com os nossos amigos. Acho que você estava lá, meio emburrado e quieto daquele seu jeito. Depois parei de falar e fiquei admirando o mar. A gente vai, Roberto, e nada muda. Tinha aquela brisa mansa soprando de sul, e na ponta da Fortaleza o espumeiro de sempre. O perfume da maresia enchia os pulmões, ah... como é bom o cheiro de mar! Tem mar aí, Roberto?                                                                                                                                                                                                                                          Crônica extraída do livro "A montanha, o mar, a cidade". Ed. Novas Ideias. 2010.                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

 

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