04/09/2020 - 15h50min - Autor: Attila Mattos

DONA FRIDA, SUAS DORES DE CABEÇA E SEU CÃOZINHO PETZY

Os animais e a saúde mental do homem.

DONA FRIDA, SUAS DORES DE CABEÇA E SEU CÃOZINHO PETZY

Quando me estabeleci em Mury no começo da década de 80, uma das características do bairro ainda era presença de muitos estrangeiros que aqui se fixaram antes, durante ou depois da segunda guerra mundial. Ainda encontrei vivos vários alemães, suíços, judeus, húngaros e outros que deram as características do então distrito de Mury, com a cultura que trouxeram de seus países. Com o passar do tempo, os velhos foram morrendo e só ficaram seus descendentes, já brasileiros. O fato é que, no meu serviço de Medico Veterinário, fiz amizade com muitos desses gringos, relacionamentos esses que mudaram minha cabeça para sempre. Lembro de ver essas senhoras europeias já idosas catando peras no chão e com uma faquinha separando a parte boa dos frutos para fazer doce, enquanto nós desprezamos tudo aquilo que não está perfeito. Elas sim, viveram uma guerra terrível que devastou seus países e sabiam da necessidade de poupar para momentos de dificuldade. Portanto, reconheciam o valor até de uma meia fruta aproveitável. Observando coisas assim é que fui me transformando em outra pessoa.

      Uma das pessoas mais interessantes que conheci naquela época foi Dona Frida, com quem conversava muito nas minhas consultas aos seus cães. Sentados naquela varanda, ela me contou muitos fatos ocorridos na sua vida. Já era viúva do seu segundo marido, gostava muito de cigarro e, com sua voz característica do tabagismo crônico e seu bom humor incrível, apesar de ter vivido os horrores da guerra, me narrava fatos tais como a estória de que foi nascida numa republiqueta do leste europeu e que quando desembarcavam na Ilha das Flores na baia de Guanabara vindos da Europa, todos os casais iam para o mato para ter relações sexuais, e exibia um sorriso largo ao relatar isso. Outra pérola de Dona Frida era o relato que seu segundo marido brasileiro era muito mais carinhoso de que o primeiro que era alemão. Agora, imaginem vocês, eu, ouvindo essas estórias; minha mente viajava enquanto escutava a reminiscências do passado dessa gente.

     Mas o tempo passa para todos nós e Dona Frida, duas vezes viúva, solitária e sem seus cães, começou a apresentar dores de cabeça tenebrosas. Seguiram-se então os inúmeros exames e nada se descobria. Passou por vários especialistas tais como clínico geral, neurologista, psiquiatra e outros, mas ninguém fazia um diagnóstico ou tratamento eficaz. O sofrimento era imenso. Depois de muita luta, lhe indicaram um psicólogo e este sim, diagnosticou a dor de cabeça como sendo se origem psicológica, para surpresa de todos, visto ser ela uma mulher alegre e sagaz. Mas o coração tem razões que a própria razão desconhece, e aquela velha senhora tinha suas dores por motivos subliminares que não nos cabe aqui examinar. O psicólogo foi avaliando o caso nas sessões seguintes e, constatando que as medicações da psiquiatria não davam resultado, teve uma intuição de recomendar que ela adquirisse um cão de companhia visto que ela falava muito de seus cães falecidos durante as conversas que tinham.  A receita foi como um bálsamo para minha velha amiga, e quando chegou em casa logo me ligou para que arranjasse um cãozinho. Me desdobrei e naquela tarde mesmo consegui um filhote para ela que de imediato o batizou de Petzy. Muitas vezes eu a ouvia chama-lo de Petzyly e custei para descobrir que o sufixo ly é uma espécie de diminutivo carinhoso da língua germânica que se dá a quem se tem carinho.

      A verdade é que Petzy curou Dona Frida das dores de cabeça e ainda a acompanhou até o fim da vida dela. São fatos como esse nos fazem pensar como os animais são importantes em nossas vidas. Enquanto a senhora cuidava de seu cãozinho e compartilhava com ele todas os momentos de sua vida, a dor de cabeça foi pro espaço. Isso pode acontecer com qualquer um de nós; um cão, gato ou outro animal doméstico, pode salvar uma vida humana. Isso é um fato real comprovado pela ciência.

     Quero aproveitar esse momento para homenagear todos esses imigrantes que certamente engrandeceram a cultura de nossa terra.

     Portanto, caros leitores, é preciso amar os animais com responsabilidade.      

 

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