12/07/2018 - 16:19h - Autor: Ricardo Silva de Souza

DE DOIS EM DOIS SEGUIMOS ENTRE O PÃO E CIRCO DA ROMA ANTIGA ÀS MIGALHAS DA GLOBALIZAÇÃO ESPORTIVA

DE DOIS EM DOIS SEGUIMOS ENTRE O PÃO E CIRCO DA ROMA ANTIGA ÀS MIGALHAS DA GLOBALIZAÇÃO ESPORTIVA

A cada dois anos o mundo assiste a eventos esportivos, de escala global, que tornam-se controversos, não apenas face à disparidade política, econômica e social que pretendem unificar, quanto às ingerências que fazem na soberania dos países sede, especialmente quando são países fora do circuito econômico global. Tanto as Olimpíadas como a Copa do Mundo de Futebol são, na atualidade, um grande negócio. Pudemos entender bem essa lógica, pois sediamos os dois eventos muito recentemente e acompanhamos as autoridades esportivas do Comitê Olímpico Internacional e da Fifa, com a empáfia dos  todos poderosos, dizendo o que o País teria de cumprir e em que prazos. Só como exemplo, o Congresso Nacional, sob o jugo da Fifa, criou uma legislação extemporânea isentando-a de pagamento de impostos por tratar-se de entidade “sem fim lucrativo”. Para ganhar a opinião pública, alardeavam que ficaria um legado na infraestrutura viária e de mobilidade urbana que beneficiaria toda uma geração futura. Pois bem: os estádios foram concluídos com ultrajante superfaturamento - escancarado pela Operação Lavajato que, de quebra, deixou à mostra as vísceras apodrecidas do Poder Público brasileiro, em todas suas instâncias - e, em sua maioria, estão fora de uso devido aos altos custos de manutenção; as vias expressas não foram concluídas e os veículos de metrô de superfície e similares jamais serão entregues a população de várias capitais brasileiras. As arenas poliesportivas das Olimpíadas do Rio de Janeiro estão sem uso e se deterioram a cada dia.

Entretanto, os organizadores desses mega eventos cuidaram bem da sua parte. O Mundial do Brasil, em 2014, rendeu à Fifa US$5 bilhões (R$20 bilhões) por meio de contratos comerciais, vendas de ingresso e direitos de televisão, um recorde jamais imaginado pela própria entidade. À título de comparação, a Copa da África do Sul em 2010, rendeu US$4,1 bilhões enquanto a Copa da Alemanha em 2006, rendeu US$250 milhões a FIFA. A entidade argumenta que deixou parte dessa renda no Brasil, com um pacote de US$ 100 milhões para o desenvolvimento do futebol no País. O que a Fifa não diz é que esse volume de recursos é equivalente ao que paga, por ano, em salários a seus próprios cartolas e diretores.

Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, proporcionou o maior faturamento da história do Comitê Olímpico Internacional. Foram US$ 5,7 bilhões embolsados pelo COI no ciclo olímpico, que foi de 2013 a 2016. O Rio, é verdade, não responde por toda a grana. O Comitê conseguiu US$ 2 bilhões nos dois primeiros anos, que culminaram nos Jogos de Inverno de Sochi, na Rússia. Os outros US$ 3,7 bilhões estão diretamente ligados ao Brasil. Nunca antes na história do COI, para usar uma frase política famosa por aqui, entrou tanto dinheiro no caixa. A maior parte vem da venda de direitos de transmissão, ou 73% do total. Os patrocínios globais de empresas transnacionais de bebidas e crédito, por exemplo, correspondem a 18% do faturamento. Os 9% restantes se dividem entre várias outras fontes de receita menores.

Afinal, você sabe quanto cada seleção receberá pela disputa da Copa do Mundo FIFA 2018? No total, a FIFA distribuirá até US$ 791 milhões, assim distribuídos:  US$ 400 milhões entre as 32 seleções participantes, da seguinte forma: US$ 8 milhões para cada uma das 16 seleções eliminadas na fase de grupos; US$ 12 milhões para cada uma das oito seleções eliminadas nas oitavas-de-final; US$ 16 milhões para cada uma das quatro seleções eliminadas nas oitavas-de-final; US$ 22 milhões ao quarto colocado; US$24 milhões para o terceiro colocado; US$28 milhões para o vice-campeão e US$38 milhões para o campeão. Os US$ 390 milhões que “sobraram” serão usados para remunerar os clubes que cederam jogadores às seleções e para compor um fundo para indenizar os clubes por eventuais lesões de seus atletas durante o período do torneio.

Por aqui, como se não houvesse angústia e dor de sobra, sofremos com uma Seleção Brasileira de Estrangeiros, que fala com sotaque espanhol, inglês, italiano, chinês e tampouco se dá ao “trabalho” de votar nas embaixadas e consulados por ocasião das eleições, também, a cada dois anos.  Os atletas de hoje, embora naturais de seus respectivos países, são personagens de um mundo sem espírito de nacionalidade cidadã.


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