29/08/2017 - 10h05min - Autor: Ricardo Silva de Souza

AS NOSSAS ATLÂNTIDAS

AS NOSSAS ATLÂNTIDAS

O cenário é preocupante, pois não se vislumbra a tomada de consciência pública para a real dimensão do problema, por desconhecimento técnico-científico, por falta de recursos financeiros, pelo pouco valor ao equilíbrio dos ambientes e pela total ignorância política de nossa classe política que tem como único horizonte o próprio umbigo

No último artigo falei sobre o risco de desaparecimento de Tuvalu e Kiribati, no Pacífico Sul por conta do aumento do nível médio dos mares.

Aqui no Brasil, também temos nossos casos de avanço da linha de costa e erosão marinha costeira, por motivos vários e, não apenas, pelas mudanças bruscas no clima global. Vejamos:

No litoral norte do estado do Rio de Janeiro, temos o exemplo de Atafona, distrito de São João da Barra. Lá, uma severa alteração na dinâmica flúvio/marinha da foz do rio Paraíba do Sul provocada pelo intenso assoreamento de seu leito, reduziu, drasticamente, a profundidade da foz do rio. Com isso o mar não encontra resistência do parco volume de água do rio Paraíba despejado em seu delta, ocasionando um severo avanço do mar sobre o continente com a destruição definitiva de imóveis e vias públicas. O curioso é que esse anormal assoreamento da foz do Paraíba do Sul iniciou-se há muitos anos, quando o Vale do Paraíba, em São Paulo, foi ocupado pelas lavouras de café, no século XIX, à partir de 1830. Naquela época, práticas não conservacionistas de plantio fizeram com que expressivo volume de solo fosse trazido, pela declividade dos terrenos e pelos cursos d’águas locais, para a calha do rio Paraíba do Sul. Daí até a sua foz foi uma questão de menos de 100 anos. Os resultados estão à mostra para quem quiser ver.

Desde 2010, o Ministério da Integração Nacional reconheceu cerca de 18 municípios, seriamente afetados pela erosão costeira, dentre eles: Caucaia, Aracati e Beberibe (CE), Jaboatão dos Guararapes, Olinda, Recife e Paulista (PE) e Pirambu (SE).

Um estudo da UFRJ informa que cerca de 40% do litoral brasileiro enfrenta problemas sérios de erosão costeira, associada à diversas causas. A conclusão desse estudo não é animadora: “No futuro, com as mudanças climáticas e a elevação do nível dos oceanos, os moradores do litoral enfrentarão mais problemas com a erosão marinha. O aumento do nível do mar vai provocar um ajuste da linha de costa. De um modo grosseiro, se o nível do mar subir um metro, a linha de costa tende a recuar 50 metros. A linha de costa é uma linha instável. O mais certo é manter uma faixa de segurança, de não edificação”.

O cenário é preocupante, pois não se vislumbra a tomada de consciência pública para a real dimensão do problema, por desconhecimento técnico-científico, por falta de recursos financeiros, pelo pouco valor ao equilíbrio dos ambientes e pela total ignorância política de nossa classe política que tem como único horizonte o próprio umbigo.

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