25/08/2017 - 17h33min - Autor: Roberto Vassallo

AS MÚLTIPLAS FACES DA MÍDIA

AS MÚLTIPLAS FACES DA MÍDIA

Influenciado por esse jogo de forças, fica difícil ao consumidor cultural, aquele que vê, ouve ou lê, formar a sua própria opinião a respeito do que deve ou não ser digerido, nem sempre sabedor de que é essa conveniência que dita as regras. Nos meios de comunicação nada se cria, tudo se copia

A imprensa, tanto a escrita como a eletrônica vive de novidades, de oportunismo e do sensacionalismo espetaculoso. É mestra em transformar gota d‘água em tempestade. Por essa e por outras que a festa da imprensa é ver o circo pegar fogo. Quem achar que há exagero ou mentira nisso, tem plena liberdade para contestar.

Ela é sustentada pelas grandes empresas, ou os assim chamados anunciantes que, obviamente, esperam retorno financeiro dos seus investimentos, via agências de propaganda. Esse retorno é ditado pela participação popular através da audiência. Ou seja, quanto mais gente lê, ouve ou vê o que está sendo transmitido, maiores as possibilidades de que seu produto ou serviço seja comprado ou divulgado. Quanto mais divulgado, mais conhecido. Essa é a roda viva que arrasta quem nela entra e o combustível que move a locomotiva da Comunicação. No meio de toda essa guerra de bastidores está a concorrência, seja dos grupos de entretenimento entre si, seja dos produtos ou serviços que chegam diariamente ao mercado, alguns ditando a moda; ou os que tradicionalmente nele já estão, mas precisam a todo custo serem consumidos a fim de não caírem no ostracismo e ficarem encalhados, sob pena de enormes prejuízos.

Indispensável dizer que nessa briga de foice no escuro nem sempre a ética impõe as regras. No entender da concorrência, regras foram feitas para serem quebradas.

De fato, na acirrada disputa por espaço no mercado, vale tudo.


AS ARMADILHAS DO PODER


Por outro lado, é costume dizer que uma mentira bem contada, impregnada de convicção, é imediatamente aceita como verdade, e contra a verdade não há argumentos. É a chamada verdade distorcida dos fatos. A propaganda enganosa acha-se sutilmente inserida nesse contexto. Aliás, diga-se, de passagem, que, salvo honrosas exceções, toda propaganda é enganosa.

A fim de atingir seus objetivos e conferir credibilidade às suas matérias, entra em cena um velho e conhecido truque, o de convocar especialistas, liberais com tantos diplomas no currículo que sua capacidade profissional jamais será posta em xeque.

A imprensa, que reúne os meios de comunicação de massa, é um negócio como outro qualquer; logo, seu objetivo é o lucro. Na busca desse lucro sem abrir mão da confiança, grandes interesses estão em jogo. E na esteira das decisões de divulgar ou não isto ou aquilo, sempre é levado em conta o fator conveniência


A CONVENIÊNCIA


Realmente, as coisas que a imprensa nomeia de verdades não passam de atualidades. Essas atualidades vão mudando de acordo com o desenrolar dos acontecimentos. Atuais agora, acabam sendo superadas em seguida. Portanto, verdades não podem ser consideradas provas momentâneas de que algo ou um fato se caracterizam como tais. Muito pelo contrário. Como tudo é dinâmico, o que parece ser às vezes não é. Daí a dinâmica dos acontecimentos ser dominada pela impermanência.


HEGEMONIA ATRAVÉS DA RENOVAÇÃO


Influenciado por esse jogo de forças, fica difícil ao consumidor cultural, aquele que vê, ouve ou lê, formar a sua própria opinião a respeito do que deve ou não ser digerido, nem sempre sabedor de que é essa conveniência que dita as regras. Nos meios de comunicação nada se cria, tudo se copia.

Acontece que a mídia precisa se renovar sempre, sob o risco de ser considerada ultrapassada e o pessoal que nela atua, desatualizado. Mas isso jamais ocorreu. Manter-se atualizada é o principal foco da mídia, conforme a conhecemos hoje. Essa renovação requer pressa; mesmo porque tal rapidez pressupõe sangue novo que deve circular nos grupos do ramo para que esteja afinada com o presente e deixar seu poder participativo registrado na sociedade, uma exigência da modernidade. O item qualidade deve sempre falar mais alto, e os furos de reportagem em muito contribuem para dar a tônica vanguardista. Mesmo porque quem sai na frente leva vantagem. Ao dar a notícia em primeira mão, acaba polarizando as atenções e virando notícia.

Em contrapartida, como a tecnologia é vítima da sua própria sofisticação, a mídia também não escapa, é vítima da sua própria presunção.


VULNERABILIDADES


Essa história de que se a imprensa falou está falado deve ser colocada em termos e vista com reserva. Por conta disso é que as grandes chantagens aparecem. A mais explorada é a chantagem emocional, sem falar nas dúvidas disseminadas pelo medo que leva todo dia a intranquilidade ao cidadão, mormente no campo mais vulnerável, o da saúde.

Por falar nisso, nos assuntos referentes à saúde, a mídia acaba focalizando justamente o seu oposto, saindo pela tangente e dando ênfase à doença. Talvez o pânico seja mais comercial do que as amenidades.

Vale lembrar que os grandes temas já foram tão explorados pelos meios de comunicação de massa, que esses passaram a apelar para as leviandades irresponsáveis, uma característica da falta de assunto.


GENERALIZAÇÕES PRECIPITADAS


Volta e meia vem à tela reportagem mostrando tombos que as pessoas, a partir de certa idade estão sujeitas, dentro ou fora de casa. Mais uma generalização irresponsável fruto do tremendo poder das sugestões negativas. A partir disso a população passa a ser vítima de outro subproduto ou desdobramento da sugestão, o condicionamento. Condicionou-se ou convencionou-se que em determinada idade tombos inevitavelmente têm que ocorrer. Esse fenômeno psicológico é chamado de limitações auto-impostas.

Outra generalização inconsequente diz respeito a algo que a força dos argumentos logo põe por terra.

É voz corrente que velhos não gostam do frio. A pergunta que não quer calar é: será pela idade em si ou por outro fator qualquer? Deixando essa difícil resposta no ar, o que dizer então dos países frios do hemisfério norte, mais desenvolvidos, onde a longevidade atingiu índices admiráveis? A conclusão óbvia derruba, logo de saída, as tentativas mais afoitas de conduzir o raciocínio por outro caminho.


INCOERÊNCIAS


A mídia que está sempre na vanguarda do combate à discriminação, é justamente a primeira a incentivá-la. Eis a prova do fato. Numa reportagem, ao entrevistar o protagonista da matéria perguntam-lhe o nome, que serve para identificar a pessoa. Em seguida, a idade. Ora, como a idade não identifica ninguém, tal procedimento só dá margem à discriminação, seja de jovens, adultos ou idosos. Terceira idade, outra absurda forma de discriminação!Identificar ou discriminar, eis a questão. Com certeza, esse vício arraigado motivo de constrangimento para muitos, deve ser cópia do americano. E por aí vai.

O fenômeno chamado de globalização acabou transformando o cidadão  num imitador contumaz de estilos ou modismos estrangeiros. Embora o brasileiro reconhecidamente seja um povo criativo, já não criamos mais nada, é mais cômodo copiar, na crença de que isso confere status.

Lembrando o que foi dito noutra oportunidade, quanto maior a necessidade de status, mais baixa é a autoestima de alguém!

Com o advento da democratização da informação, ficou mais fácil o acesso à riqueza de dados. Esse episódio acabou produzindo um maior número de pesquisadores voluntários ou institucionalizados. Então, a palavra leigo deixou de existir e deu lugar a uma legião de investigadores independentes, o que possibilitou uma série de inventos e surpreendentes criações à margem da rígida metodologia científica.


LIBERDADE INFORMAL


Fala-se muito em liberdade de imprensa; tal liberdade chegou ao ponto de ser defendida até como dogma.

Todavia, na conjuntura atual, só as redes sociais podem ser consideradas  como imprensa realmente livre. Embora cada um tem plena liberdade de dizer ou expressar o que bem entende, no entanto, a despeito de ser um termômetro social, nela não existe responsabilidade. Constitui o somatório de opiniões, desejos, emoções, vontades, reivindicações, críticas; enfim, é ua massa tão heterogênea e desencontrada que não merece credibilidade quanto ao que posta. Diferente da assim chamada mídia empresarial, a que, através de um corpo de profissionais altamente qualificados procura impor respeito. No entanto, a história acaba se repetindo: para sobreviver, sempre é obrigada a fazer o jogo da conveniência. 

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