29/05/2017 - 10h47min - Autor: Attila Mattos

EXECUTIVO ALEMÃO FOI MORAR NA FAVELA

Zoonoses: doenças dos animais transmissíveis ao homem

EXECUTIVO ALEMÃO FOI MORAR NA FAVELA

No barraco a vida de Hans se transformou. Amou a moça como a uma Deusa. Uma hora depois estavam satisfeitos, cansados e com fome. Tudo o que Eliete tinha para oferecer era arroz com batata e azeite composto com óleo de soja. Para beber só havia água. Após a refeição, os dois apagaram

         Numa sexta-feira à tarde, final de expediente, Hans desceu de seu escritório na Av. Rio Branco no centro do Rio de Janeiro. Saiu do prédio meio atordoado, pois sua semana tinha sido demasiadamente estressante. Sua vida em geral vinha sendo terrível. Tinha 56 anos e seu trabalho como executivo de uma multinacional alemã era um martírio. Vivia descompensado porque além do trabalho fatigante, o convívio familiar era sem graça, entediante, isto é, a mesmice de sempre. Com 30 anos de casamento, sua esposa Frida já não lhe dava a menor atenção, tornara-se uma mulher fria que só cuidava da casa e dos filhos. Na verdade ela nem sabia ao certo se Hans estava no Rio ou em viagem de negócios da empresa.

     Naquela sexta-feira, Hans estava estafado, triste, amargurado e sem saber o que fazer. Ir para casa não lhe dava o menor prazer. Nesses dias, as pessoas se reúnem nos botequins para comemorar o final da semana de trabalho.  Assim, Hans foi perambulando, parando num bar e noutro, tomando um whisky aqui, uma cerveja ali, até chegar meio trôpego numa boate da Lapa. Já tinha a gravata frouxa, o paletó aberto e amarrotado. Passava das 10h da noite e, o rosto muito vermelho, o cabelo despenteado e, enfim, o aspecto geral do alemão era de arrasado. Observou-lhe Eliete, dançarina da boate que vez por outra fazia uns programas para melhorar seu rendimento e, assim, satisfazia a angústia de quem chegava como Hans. Elieteaproximou-se do gringo que lhe pediu um drink. Conversa vai, conversa vem, a moça sentou e passou a ouvi-lo por mais de duas horas. Faltava pouco para meia noite quando Eliete o levou o para a Rocinha.

    No barraco a vida de Hans se transformou. Amou a moça como a uma Deusa.  Uma hora depois estavam satisfeitos, cansados e com fome. Tudo o que Eliete tinha para oferecer era arroz com batata e azeite composto com óleo de soja. Para beber só havia água. Após a refeição, os dois apagaram.

    Acordaram às 10h da manhã e Hans não estava preocupado visto que Frida não ligava mesmo para ele. Levantaram e beberam café puro pois era o que tinha. Conversaram um pouco, Hans deu-lhe um agrado em dinheiro e foi para sua residência na Barra da Tijuca. Lá chegando foi dito e feito; Frida nem perguntou aonde o marido dormiu e foi logo despejando problemas domésticos. Hans praticamente nem a ouvia, ainda embalsamado pelo cheiro e pelas lembranças da noite.

    Teve um fim de semana medíocre como sempre, porém, estava mais aliviado da tensão permanente em que vivia. Novamente chegou a sexta-feira. E daí, o que fazer? Em principio, Hans titubeou. Achou que era coisa de doido. Mas depois de alguns whiskys, chopps e azeitonas, partiu para a Lapa. Sentaram, beberam, conversaram e Hans dormiu mais uma vez na Rocinha.

    As sextas-feiras se sucederam e por fim já passeavam e dançavam na Lapa antes de ir para “casa”. Com o tempo passaram a manter contato diário e numa viagem de trabalho a São Paulo, Eliete o acompanhou.

    No dia 24 de março de 2009, Hans apresentou sintomas da zoonose chikungunya, enfermidade viral transmitida pelo mosquito aedes aegypti. Eliete cuidou dele por 10 dias e, quando ele estava melhor, foi até sua residência e disse a esposa: 

- Frida, ich will in der “favela” wohnen!!! 

Tradução: Frida,vou morar na favela!!!       

 

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