12/01/2018 - 09:13h - Autor: Ayrton Dias

VERÃO “PURO MALTE”

VERÃO “PURO MALTE”

A estação mais quente do ano teve além das altas temperaturas uma significativa mudança nos hábitos dos apreciadores de cerveja. É o resultado de um dinâmico processo de busca por sensações mais complexas que resultou em um público exigente que sabe apreciar - e valorizar - as experiências sensoriais plenas oferecidas pelas cervejas de alto padrão. Para atender a essa demanda o mercado passou a oferecer produtos de grande valor agregado que, por serem bem mais elaborados, exigem um consumo mais qualificado. Atualmente ao se pedir uma cerveja, aspectos como cor, aroma e sabor são de grande relevância dentro de um novo padrão comportamental adotado pelos cervejófilos. A troca de informações sobre fatos históricos, tipos de produção, ingredientes, processos de fermentação, harmonizações e principais escolas, por exemplo, passaram a integrar as conversas dessa nova geração de ávidos consumidores de cervejas especiais/artesanais ou, como nos referimos nesta matéria, “puro malte”!

Vamos tratar nesta edição da verdadeira consolidação de hábitos na qual a expressão “beber menos e melhor” assume grande importância, porque atualmente o ato de beber cerveja está no âmbito da degustação, sendo fundamental que cada gota seja muito bem apreciada. Pequenos detalhes podem fazer toda a diferença! O ideal é que a temperatura seja adequada a cada tipo de cerveja, assim como o recipiente em que ela é servida e não podemos nos esquecer da harmonização com o prato, que também é de grande relevância. Para alguns pode soar como uma chatice extrema, mas dentro da atual proposta de consumo isso faz todo sentido. Só é bom não exagerar nessas considerações ao ponto de se tornar um “cervochato”. É importante ressaltar que nada impede também que esse “padrão ideal” se torne secundário, prevalecendo apenas à vontade de se beber uma “gelada”, sem a obediência a nenhum critério pré-estabelecido. 

NOVA FRIBURGO: "A CAPITAL NACIONAL DAS CERVEJAS ARTESANAIS"

 É unânime a impressão de que neste verão as especiais/artesanais estarão em evidência. O grande responsável por essa verdadeira revolução no mercado é o consumidor, que tanto na serra quanto no litoral, passou a exigir um produto diferenciado quando o assunto é cerveja. Em Nova Friburgo, a destacada presença dos alemães, um dos povos colonizadores do município, foi fundamental para a cultura cervejeira local. Quem nunca ouviu falar dos famosos festivais de cerveja da cidade que atraíam grande quantidade de turistas e visitantes? A influência germânica se estendeu também à gastronomia e vários restaurantes se renderam a sua temática. Essa tradição cervejeira foi um fator preponderante para que fosse implantada uma lei municipal que incentiva a produção e a comercialização das cervejas artesanais fabricadas no município, tornando-o pioneiro na criação de uma legislação que estimula o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva do setor cervejeiro, movimentando a economia, fomentando negócios e, obviamente, incrementando o turismo.

Alguns dos precursores do mercado cervejeiro de Nova Friburgo Região: Os empresários Abílio Gonzaga (Cervejaria Buzzi), Jorge Bräuniger (Restaurante Bräun&Braun) e Cosme Leandro (Cervejaria Barão Bier) - Foto: Êxito Rio

A criação da “Lei da Cerveja, um belo exemplo de parceria público/privada, deu início a um processo que pode transformar o município na Capital Nacional das Cervejas Artesanal. É importante ressaltar a fundamental iniciativa do SEBRAE/RJ na criação dessa lei. Segundo Márcia Moreira - Analista de Projetos da instituição, “Através do projeto de fortalecimento de bebidas artesanais, atuamos não só na orientação de toda minuta de legislação, que foi votada e aprovada pela câmara, como também no processo de legalização das Cervejarias através capacitações com profissionais especializados e parcerias com o Ministério da Agricultura e o Senai.

Momento histórico! Os membros fundadores da Associação da Indústria Cervejeira de Nova Friburgo e Região brindam a formalização da entidade. Da esquerda para a direita: Daniel Rocha (Born2Brew), Humberto Stroligo (W Kattz), Gustavo Borges (Veg Bier), Filipe Alves (Dual), Mônica Mendonça (Angel&Devils), Leandro Cosme (Barão Bier), Sérgio Paiva (Diretor Executivo), Abílio Gonzaga (Buzzi) e Guto Lemgruber (BeerTiquim) - Foto: Êxito Rio

Para o diretor executivo da Associação da Indústria Cervejeira de Nova Friburgo e Região, Sérgio Paiva, a Lei municipal 4409/2015 criou mecanismos de incentivo à implantação de indústrias produtoras de cerveja e chopes no município, e destaca que esse incentivo legal ainda permite que aproximadamente 900 estabelecimentos de Nova Friburgo, entre bares, restaurantes, mercearias, padarias, lojas de conveniências etc, possam se beneficiar com a comercialização das cervejas artesanais produzidas no município por meio de desconto de até 50% no IPTU do estabelecimento. “Na região de Nova Friburgo existem 12 marcas conhecidas com registro no MAPA (Ministério da Agricultura), destas, sete marcas locais e uma do município de Santa Maria Madalena, fundaram a Associação, e todas as marcas oferecem mais de 40 rótulos em diversos estilos. Além delas, temos cinco novas fábricas em processo de construção e mais três empresas em fase de constituição jurídica.” afirma Sérgio. Vale registrar que essas fábricas estão em estágio crescente de aumento de produção, com uma capacidade de produção instalada de 60 mil litros/mês, com tendência a atingir, em função dos projetos em implantação, o expressivo número de 100 mil litros/mês em um curto espaço de tempo, Essa produção é compatível com o consumo local, porém parte do que é produzido em Nova Friburgo é vendido em outras praças, especialmente no Rio de Janeiro. 

O Sebrae/RJ, teve uma fundamental importância no processo de criação da Lei de incentivo a implantação de indústrias produtoras de cerveja e chopes em Nova Friburgo. No detalhe: Márcia Moreira - Analista de Projetos do SEBRAE/RJ, que atua na Região Serrana - Foto: Êxito Rio

Sérgio faz questão de ressaltar que no entorno da produção cervejeira estão surgindo outras atividades complementares, como lojas de insumos, bares especializados, cursos etc. “O município e a região começam a se configurar como um Polo da Indústria Cervejeira com vocação na produção das cervejas ditas especiais, gourmet, artesanais ou crafts, ou seja, numa categoria de produtos, feitos em pequeno volumes, utilizando matérias primas de alta qualidade, sem aditivos químicos e que agregam ao processo produtivo extrema competência e muita paixão!" finaliza. 

A Acerva Friburgo completou dois anos de existência e tem contribuído para a formação do talento cervejeiro friburguense. “Estamos ajudando a desmistificar a crença de que a cerveja foi feita só para acompanhar torresmo e bolinho de bacalhau.Atualmente as harmonizações acontecem em altíssimo nível e já fazem parte da rotina dos adeptos da cultura cervejeira em nosso município.” Gabriel Thurler (presidente da ACERVA Friburgo). No detalhe: Alguns associados comemorando os dois anos de existência da entidade - Foto: Êxito Rio

O presidente da Associação dos Cervejeiros Artesanais (Acerva Friburgo), Gabriel Thurler é um bom exemplo do atual momento vivido pelo município. Ele, um “paneleiro”, está partindo para o ramo empresarial e pretende inaugurar em breve uma cervejaria no município. “A Acerva Friburgo, que já conta com trinta associados, tem sido um ambiente muito propício para o aprimoramento do talento local. Os workshops oferecidos pela Associação assim como a participação em eventos cervejeiros tem contribuído para que os ‘amadores’ obtenham uma grande expertise na produção de boas cervejas. Em nossos dois anos de existência, nossa entidade tem contribuído de maneira expressiva para potencializar ainda mais o avanço do mercado cervejeiro da cidade, não só no aprimoramento de talentos, como também na formação de um público muito qualificado!” declara Gabriel. O curioso é que vários empresários do setor são associados Acerva e participam intensamente das atividades promovidas em um verdadeiro exemplo de “amor a causa” cervejeira. Gabriel destaca também que todos os integrantes da Acerva friburguense estão muito motivados para tornar possível o sonho de transformar o município na Capital Nacional das Cervejas Artesanais. 

NITERÓI - CULTURA CERVEJEIRA EM ALTA

É notório o consumo de cervejas nas regiões litorâneas. Em Niterói não é diferente e, apesar de contar com apenas uma única cervejaria, o município vem despontando no mercado das cervejas de alto padrão. “Temos muito orgulho da Cervejaria Noi, mas o talento cervejeiro dos niteroienses vai muito mais além. Contamos com muitos “paneleiros” criativos, premiados e reconhecidos em todo o país que passaram a produzir marcas “ciganas” que têm contribuído muito para o desenvolvimento do mercado cervejeiro na cidade. Alguns rótulos estão no topo da minha lista como a DeadDog, Oceânica, HocusPocus e Araribóia.” afirma o empresário Marcelo Medeiros proprietário da Padaria Engenho do Pão, membro da Acerva Niteroi e produtor da cerveja caseira Yuki Wolf, que reúne duas de suas grandes paixões: o “precioso líquido” e o seu cão da raça akita.

Marcelo Medeiros, David Tosta e Alisson Christi observam que o mercado cervejeiro da cidade está em plena expansão - Foto: Êxito Rio

Um grande indicador da atual pujança do mercado das cervejas especiais é o Quiosque da Noi na praia de Itacoatiara. Segundo Marinho, proprietário do estabelecimento, a procura tem sido cada vez maior por cervejas de alto padrão. Temos movimento durante todo o ano. Nossos clientes curtem a praia, mas não deixam de beber cervejas harmonizadas com as opções do nosso cardápio. É um público muito exigente que curte o nosso padrão de qualidade. “Em nosso Quiosque reunimos pessoas bonitas, interessantes e que, principalmente, adoram as boas cervejas que comercializamos.”

O Quiosque da Noi na praia de Itacoatiara em Niterói, é um bom indicador da pujança do atual mercado. No detalhe, "Marinho” com seu cardápio de cervejas de alto padrão - Foto: Êxito Rio

Em Niterói a Cervejaria “Noi” agrada até a quem não consome bebidas alcoólicas. Com uma estrutura de primeiríssimo mundo, o estabelecimento, localizado na Região Oceânica da cidade, virou ponto de encontro de várias tribos. Esses espaços tornaram-se verdadeiras atrações turísticas em alguns municípios como é o caso da Vila St. Gallen, em Teresópolis e o Museu da Bohemia em Petrópolis. A tendência atual é a de que o turismo cervejeiro ganhe cada vez mais força em função das verdadeiras peregrinações que já há muito tempo ocorrem. Na Região Serrana o Circuito Cervejas das Montanhas vem naturalmente consolidando um processo natural no qual os cervejófilos se aventuram na busca por novas propostas e principalmente pelo conhecimento, a palavra-chave para aqueles que têm no consumo da cerveja um hábito e que através dele valorizam ainda mais as sensações. Não é necessário se tornar um mestre-cervejeiro ou um sommelierbier para saber a importância dos bons ingredientes e da perfeita combinação entre eles na elaboração de uma boa cerveja! A grande variedade de opções oferecidas no mercado das cervejas especiais não é um estímulo para que se beba cada vez mais, e sim para que se beba melhor. O setor que se tornou uma verdadeira fábrica de empregos, tributos, rendas e benefícios sociais, com uma das maiores contribuições econômicas do país, tem se aperfeiçoado. No Brasil, a qualidade passa a fazer toda diferença e a cerveja deixou de ser apenas uma bebida popular. Os bons rótulos exigem investimentos compatíveis com o prazer que proporcionam. Mas não se esqueça: “Aprecie com moderação e... se for dirigir, não beba!”


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