20/02/2017 - 10h42min - Autor: Ricardo Silva de Souza, geólogo.

VAI GRAXA AÍ, DOUTOR?

VAI GRAXA AÍ, DOUTOR?

O Manual de Redação da Presidência da República indica que a palavra Doutor deve ser usada por quem concluiu um curso acadêmico de doutorado, ou seja, é um título acadêmico e não um pronome de tratamento

No transcorrer de uma cerimônia para colação de grau de bacharel em Direito, o Patrono da turma, em seu discurso, fez referência crítica ao título de Doutor que, à partir daquele momento, iria acompanhar os formandos ao longo de suas vidas. É uma questão interessante o porquê de algumas profissões trazerem o “Dr” como pronome de tratamento. Vamos aos fatos!

Enquanto  D.Pedro I era Imperador do Brasil, foi promulgada, em agosto de 1827, a Lei que instituía 2 (dois) cursos de Direito no Brasil, um em Olinda e outro em São Paulo. Um dos artigos dessa Lei apresentava o seguinte texto: "Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos que devem formar-se, e só os que o obtiverem poderão ser escolhidos para Lentes". Para esclarecer, Estatutos são as Faculdades de Direito existentes à época. Lentes correspondem a atual Livre Docência, pré-requisito para a condição de Professor Titular.

Convencionou-se, então, que o título de doutor seria concedido aos advogados que tivessem bacharelado e que posteriormente defendessem uma tese ou se dedicassem ao ensino das ciências jurídicas. Se apenas concluísse o curso seria chamado apenas de bacharel.  A sociedade da época sentiu-se desconfortável e incomodada de ter de inquirir cada advogado se ele era apenas bacharel, se tinha ou não defendido uma tese ou se era professor universitário para então denominá-lo de Doutor. A saída foi nivelar por baixo e, à partir daí, todo graduado em Direito passou a receber o tratamento de doutor.

Quanto aos médicos, existe uma explicação calcada na associação da palavra Doutor com o ensino, o que pressupõe um notório conhecimento. Como as sociedades sempre associaram a atividade médica como uma função que exige grande conhecimento, entende-se o porquê de, também, serem chamados de Doutor.

No século 19, a população brasileira não chegava a 5.500.000 de pessoas, das quais uma ínfima parcela da elite escravocrata iniciava e concluía um curso superior no País. Hoje, somos mais de 207.000.000 de habitantes e basta usar sapatos para virar “doutor”. Vai graxa aí, doutor?

Em tempo, o Manual de Redação da Presidência da República indica que a palavra Doutor deve ser usada por quem concluiu um curso acadêmico de doutorado, ou seja, é um título acadêmico e não um pronome de tratamento.

Adaptado de artigo do Dr. Marco Antônio Ribeiro Tura 

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