23/01/2017 - 09h12min - Autor: Victor Abramo

O sequestro

O sequestro

"- Doutor Tobias, faça-me o favor! Pensei que o senhor tivesse notado que está tratando com uma pessoa de alto nível; um pós-graduado na universidade do crime. Ou o senhor acha que eu e meus companheiros vamos assaltar um 438 no Aterro do Flamengo?"

O telefone toca.

- Alô.

- É da casa do doutor Tobias de Alcântara y Alcântara Lobão?

A mulher, até então entretida com uma fotonovela enquanto a manicure arrancava bifes e aparava unhas, ouve a explicação do estranho. De repente...

- Tobiiiiiias!!!

O grito ecoa por toda a cobertura e atira longe a espantada manicure.

- Que quié, Dagmar? Não vai me dizer que estourou o cheque especial outra vez.

- Não é nada disso! Tem um homem aqui no telefone dizendo que vai sequestrar nossos filhos!

- Quem? O Mauricinho e a Patricinha?

- É claro, idiota! Ou você tem mais algum filho?

- Deixa que eu falo com ele. Passa logo esse telefone. Alô!!!

- Doutor Tobias?

- Ele mesmo.

- Desculpe o susto em sua patroa. Mas as mulheres são assim mesmo, apavoradas.

- Quem é o senhor? Diga logo!

- Pois não. Eu represento uma quadrilha especializada em sequestros. Coisa do mais alto nível. De Primeiro Mundo mesmo. Temos um retrospecto que, se for de seu interesse, posso fazer chegar às suas mãos e...

- Diga logo o que quer, homem de Deus.

- Como havia começado a explicar à Dona Dagmar, temos tudo planejado para sequestrar seus filhos. Temos seguido os passos deles há meses, e não há nada que eles façam que não seja do nosso conhecimento.

- Santa Bárbara!

- Não é necessário entrar em pânico, doutor. Estou ligando justamente para evitar maiores dissabores.

- Quer tratar de falar logo! Não vê que tudo isso é terrível?

- Na verdade tudo vai depender exclusivamente do senhor.

- Como assim?

- O senhor é uma pessoa inteligente, frequenta as mais altas rodas da sociedade e, mais importante, é um homem de negócios. Por isso mesmo deve saber que um sequestro hoje em dia exige uma infraestrutura muito cara...

- Pera lá! Que qui é isso? Um pedido de resgate por antecipação?

- Quase isso. Eu diria que é uma promoção imperdível. O senhor por acaso sabe quanto custa o aluguel de um fuzil-metralhadora AR-15 usado?

- Nem imagino.

- Pois é, ninguém se interessa... Mas fique sabendo que está os olhos da cara. E a munição, então? O Comando Vermelho cobra por cada tiro disparado. Um absurdo!

- Não entendo aonde o senhor quer chegar.

- É simples. Veja bem, doutor Tobias: para seqüestraro Mauricinho e a Patricinha teríamos que alugar pelo menos uns dois fuzis, uma escopeta de repetição; algumas pistolas 9 milímetros... Isso sem falar em roubar uns dois carros, o que sempre representa um risco...

- É o fim da picada!

- É verdade. E ainda nem falei no aluguel dos ternos. O senhor não vai querer que amanhã ou depois os jornais digam que seus filhos foram sequestrados por um bando de pés-de-chinelo, vai?

- Não, isso nunca!!!

- Tem mais: pense quanto iríamos gastar com a alimentação das crianças no cativeiro. Conhecemos bem seus hábitos alimentares e temos exata noção de quanto doeria em nossos bolsos.

- Nesse ponto o senhor tem toda a razão. A Dagmar faz todas as vontades e...

- É compreensível. Mãe é mãe. Mas voltemos ao assunto. O senhor também não vai querer que seus filhos fiquem presos num barraco, vai?

- É claro que não! Pelo menos um flat em Ipanema...

- Isso mesmo. Tem ideia de quanto custaria?

- O senhor quer chegar logo ao cerne da questão.

- Chegar onde?

- Diga logo o que quer, homem!!!

- Bem, diante do que lhe expliquei, um sequestro de categoria não lhe custaria menos do que R$ 300 mil por cabeça.

- O senhor está louco. É um absurdo!

- Concordo. Entra plano, sai plano e os preços não param de subir. Por isso mesmo tomei a liberdade de ligar para negociar.

- E qual é a sua proposta?

- Muito simples. Para que tudo continue em paz em sua casa o senhor nos paga adiantado apenas R$ 200 mil pelos dois. Uma verdadeira pechincha. Se for de seu interesse podemos ainda, por mais R$ 20 mil por cabeça, assegurar pelo prazo de um ano que seus filhos estarão a salvo de qualquer tentativa de sequestro, parta ela de onde partir.

- É um desconto razoável...

- Eu lhe disse. Qualquer outra quadrilha pediria o dobro, tenha certeza. Mas estamos em período de promoção e a aatchim!!!!

- Saúde!

- Obrigado. Passei a madrugada vigiando a Patricinha. Fiz uma vigília junto à discoteca que ela frequenta. Aliás, não é de minha conta, doutor, mas o senhor e Dona Dagmar deviam prestar mais atenção às companhias da Patricinha. Aquela amiguinha com quem ela estava ontem deve calçar fácil fácil um 44 bico largo.

- Quem? A Maria João?

- Bem... Pelo que pude perceber ela está muito mais para João do que para Maria, se é que o senhor me entende...

- Essa não! Eu vivo dizendo para a Dagmar que aquela menina não serve para nossa Patricinha. Mas vamos lá, diga logo: como farei para entregar o dinheiro?

- Isso não será problema. O senhor pode pôr numa caixa de correio que fica perto da casa daquela sua amante lá da Abolição.  Aliás, por falar em amante...

- Peraí!!! Isso é um duplo sequestro com pagamento adiantado ou vai descambar para uma vil chantagem?

- Tem toda a razão. Mas o senhor entende. Em época de crise quem se mantém atado a um só ramo acaba quebrando. É preciso diversificar, inovar. Nós, por exemplo, estamos para lançar uma novidade que promete cair como uma verdadeira bomba no mercado. Eu nem devia estar falando essas coisas pro senhor...

- Conta logo!

- Promete guardar segredo? O senhor sabe, o plágio anda solto por aí e, se alguma outra quadrilha lança a inovação antes de nós, babau.

- Pode falar. Estou curioso.

- Pois bem: estamos para lançar um arrastão...

- Ora, quanta besteira! Arrastão já é uma coisa fora de moda, qualquer turminha de pivetes faz. É na praia, no ônibus, nas praças...

- Doutor Tobias, faça-me o favor! Pensei que o senhor tivesse notado que está tratando com uma pessoa de alto nível; um pós-graduado na universidade do crime. Ou o senhor acha que eu e meus companheiros vamos assaltar um 438 no Aterro do Flamengo?

- Então não entendi como...

- Faremos arrastões, sim, mas com uma grande diferença: o bicho vai pegar no green do Country, na piscina do Clube Naval, num casamento na Candelária...

- Puxa! Isso vai ser mesmo um estouro! Vocês vão aparecer em cadeia nacional de rádio e televi...

- Por favor! Por favor, doutor! Não repita esta palavra.

- Qual?

- Cadeia. O senhor entende, é constrangedor.

- Tem razão, desculpe. Não foi intencional.

- Está desculpado. Bem, então estamos combinados? O senhor põe o dinheiro na caixa de correio amanhã à noite. Não avise à Polícia e tudo correrá conforme combinamos. O senhor vai querer os certificados de garantia das crianças?

- Claro, claro.

- Então, só me resta agradecer. Foi um prazer negociar com o senhor. Até amanhã à noite e...

- Espere, espere.

- O que foi? Alguma dúvida?

- Não, não se trata disso. Mas... já que essa negociação chegou a um bom termo e o senhor me pareceu ser um profissional competente, me diga uma coisa.

- Pois não.

- Quanto vocês cobrariam para sequestrar a Dagmar por uns seis meses?

victor.abramo@gmail.com

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