30/10/2017 - 08:54h - Autor: Ayrton Dias

A Truta de Nova Friburgo

Um ótimo símbolo para o turismo

A Truta de Nova Friburgo

Da família do salmão, a truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) é um peixe muito exigente. Para o seu crescimento ideal necessita de água de ótima qualidade, límpida, bem oxigenada e com baixa temperatura, em torno de 12 a 17 graus Celsius. Não é em qualquer lugar que se encontra condições ideais para sua criação, sendo um verdadeiro privilégio produzir truta, por ela ser um importante indicador biológico que atesta a qualidade da água, boas condições climáticas e pureza do ar. O famoso peixe não resiste a um ambiente poluído, só sendo possível a sua criação em locais onde as nascentes e matas ciliares são muito bem preservadas. A sua cadeia produtiva é um bom exemplo de sustentabilidade, a começar pelo investimento dos truticultores na mão de obra local, não só motivando a permanência das pessoas nativas em suas regiões, como também gerando emprego e renda para elas.


Carlos Victor Frez Overney, trabalhador rural da localidade de Macaé de Cima


A Truta em Friburgo
A história da truta friburguense começou nos anos 1950, na localidade de Macaé de Cima. Naquela época, o município era muito frequentado por turistas estrangeiros e os primeiros alevinos da espécie arco-íris foram trazidos de avião da Dinamarca pelo casal de empresários Horst e Elisabeth Garlip, para atender aos hóspedes que exigiam pratos mais sofisticados no antigo Hotel Fazenda São João. Com o encerramento das atividades do Hotel, coube ao empresário Evandro Pinto dar continuidade ao processo de criação das famosas trutas, adquirindo da família Garllip a Fazenda Velho Araribá (Ârvore de Araras), chegando a se tornar o maior produtor do Estado do Rio de Janeiro.


Marcelo Menezes, Lícius de Sá Freire e Thiago Mendes, representantes da Fundação Instituto de Pesca do Rio de Janeiro (Fiperj) na Região Serrana, têm desenvolvido um importante trabalho no aprimoramento da truta friburguense


Um produto de grife
Em função da sua relevância, as trutas de Nova Friburgo e Região estão obtendo junto ao Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) o registro de Indicação Geográfica (IG). Trata-se de uma iniciativa do Sebrae/RJ, visando valorizar ainda mais o delicioso pescado friburguense, “um produto exclusivo, característico da nossa região e de grande reputação e valor intrínseco”. Esse processo encontra-se em andamento e é uma demanda dos truticultores locais que almejam a certificação da produção. O Instituto Inovates, uma instituição especializada nesse tipo de procedimento, está à frente do trâmite legal e a expectativa é de que, em no máximo dois anos, as trutas de Nova Friburgo e Região ganhem um grande diferencial no mercado por possuírem qualidade superior, serem especiais e por também serem dotadas de excelência e exclusividade. A IG garante a propriedade intelectual, a qualidade e o reconhecimento de um produto ligado a um território, valorizando ainda mais a virtude natural de uma região. É importante frisar que não é qualquer produto que pode obter essa certificação, mas somente aqueles que possuem características únicas e especiais podem desfrutar desse selo de qualidade, viabilizando, dessa forma, o reconhecimento internacional.


Um alimento leve e saudável
Por ser um peixe rico em ácidos graxos, como o Ômega-3, a truta fornece grande quantidade de vitaminas, fósforo e cálcio, e seu índice de proteínas é mais alto do que o da carne bovina. Além disso, devido ao baixo teor de calorias, ela é recomendada para dietas de emagrecimento. Além de nutritiva, a truta, que tem a carne tenra e o paladar suave, se harmoniza bem com diversos temperos, possibilitando a criação de pratos preciosíssimos. 

O Ômega-3, um ácido poli-insaturado que tem por propriedade a redução do nível de colesterol no sangue, é encontrado em maior quantidade nos peixes de água fria, se concentrando na parte mais escura de sua carne e perto da espinha. Quando ingerida regularmente, essa substância é responsável por uma série de melhorias no metabolismo, tais como: diminuição do risco de um ataque cardíaco; regularização da frequência cardíaca; diminuição da pressão sanguínea; prevenção da formação de coágulos; redução da gordura do sangue e diminuição da possibilidade de derrame, por exemplo.


Devanildo Souza (Chef Dê), juntamente com os representantes das vilas de São Pedro da Serra e Lumiar e do distrito de Mury na famosa foto dos chef’s, no lançamento da 5ª edição do Festival de Truta, realizada em 2011

Os Festivais
A truta, que tem um delicado sabor suavemente adocicado, é muito valorizada no setor gastronômico  protagonizando receitas especialíssimas, muito apreciadas por comensais de exigente paladar. Em função disso, na década de 1990, o empresário Gilberto Sader sugeriu, em uma reunião com lideranças da cidade, a criação de um festival gastronômico. Considerando-se a importância da truta para o município, a ideia foi muito bem aceita e resultou na realização, em 1996, da 1ª edição do FestTruta, como era chamado o evento, idealizado e realizado pelo empresário José Carlos Thurler Ruiz, através da sua empresa Topmark. As seis edições do FestTruta envolveram todo o município e contribuíram intensamente para que a truta passasse a ter destaque não só nos restaurantes de Friburgo, como também em vários estabelecimentos da capital fluminense. Cabe ressaltar a importância de Carlos Alberto Müller, ex-presidente da Associação Trutas de Nova Friburgo, que durante a primeira fase do Festival foi fundamental a sua realização. Essa primeira fase foi encerrada em 2003.

José Carlos Ruiz, idealizador e realizador do FesTruta.(foto: Êxito Rio)

Em 2007, uma iniciativa do Arranjo Produtivo Local, APL da Serra, fez com que um evento relacionado à truta voltasse a acontecer no município. Realizado em formato regional, com a participação apenas das vilas de Lumiar e São Pedro da Serra, teve início o “Festival de Truta”. Já em sua 3ª edição o evento começou a contar também com a participação do distrito de Mury e a envolver um maior número de instituições da cidade. A partir da 7ª edição, o Festival passou a ser realizado pelo Nova Friburgo Convention Visitors & Bureau (NFCV&B) e voltou ao âmbito municipal já com o nome de Festival de Truta de Nova Friburgo. É importante registrar a atuação dos empresários Devanildo Souza (Chef Dê) e Evandro Pinto que, mesmo apenas regionalmente, mantiveram viva a chama do principal evento turístico da cidade quando deram início a sua segunda fase. Coube ao ex-presidente do NFCV&B e atual presidente da Associação Comercial Industrial e Agrícola do Município, Flavio Stern, a decisão de voltar a envolver toda a cidade no evento.

O truticultor Frederico Lucho produz no Sítio Gaia, em Macaé de Cima, trutas de excelente qualidade. (foto: Êxito Rio)

Muitos nomes contribuíram para que a truta alcançasse o status de “celebridade” na gastronomia de Nova Friburgo. Citamos apenas alguns, mas muitos personagens tiveram papel relevante nesse processo, dentre eles Hércules Neves, atual presidente da Associação de Truticultores de Nova Friburgo, e a empresária Tenilza Cordeiro, pioneiros na adoção do conceito de trutário associado a restaurante; Fernanda Gripp, gerente regional do Sebrae/RJ, que sempre acreditou na importância do evento para a cidade; e Ana Paula Blaudt, atual presidente do NFCV&B, que vem trabalhando intensamente para o aprimoramento do Festival, que é um dos mais importantes eventos turísticos do estado.

O empresário Evandro Pinto (Restaurante Le Bon Bec) adquiriu da família Garlipp o trutário Fazenda Velho Araribá e chegou a se tornar o maior produtor do estado. (foto: Êxito Rio)



A vice-presidente Eujane Libotte e a presidente do (NFCV&B) Ana Paula Blaudt, juntamente com o presidente da ACIANF Flavio Stern (foto: Êxito Rio)

Jorge Bräuniger (Restaurante Bräun&Bräun): “A truta friburguense, dentre outras inúmeras razões, tem características únicas e exclusivas porque se alimenta de cerveja!” 


Um ícone para o turismo de Nova Friburgo
Comprovadamente é um privilégio produzir trutas. Aspectos ligados à preservação ambiental, qualidade de vida, alta gastronomia e a economia estão diretamente relacionados ao famoso peixe. Considerar a possibilidade de se adotar a truta como ícone municipal do turismo, principalmente em um momento de pleno desenvolvimento dessa indústria no âmbito nacional, passa a ser uma boa alternativa. 

A truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss)

Com certeza, a multifacetada Nova Friburgo é repleta de vocações: pretende se tornar a “capital nacional da cerveja artesanal”, é um famoso polo de moda íntima, conta com uma forte indústria metalmecânica, se destaca na produção de flores e morangos e forma capital intelectual, através de seu polo universitário. Todavia, pelo fato de contar com a participação de uma dezena de países colonizadores em seu processo de desenvolvimento, o município foi incorporando características especiais, notadamente em sua gastronomia que, através da criatividade e competência dos chefs friburguenses, consolidou as influências dessas nações em receitas de inigualável sabor. 

Dessa forma, a truta de Nova Friburgo, um produto único e exclusivo, passou a protagonizar pratos muito concorridos que atraem cada vez mais turistas e visitantes para a cidade, dinamizando a economia local, aumentando a taxa de ocupação nos meios de hospedagem, motivando um maior fluxo de pessoas em bares e restaurantes e gerando emprego e renda para a população. Enfim, através da sua cadeia produtiva esse pescado traz muitos benefícios concretos para o município e, por ser um grande atrativo turístico, a truta precisa ocupar lugar de destaque em Nova Friburgo, tornando-se o símbolo do turismo da cidade! 


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