16/12/2016 - 08h56min - Autor: Ricardo Silva de Souza, geólogo.

"A água da montanha pode matar bem mais que a sede"

"A água da montanha pode matar bem mais que a sede"

Poucas vezes atentamos que os recursos hídricos subterrâneos podem ser, seriamente, impactados pela atividade humana acarretando prejuízos inimagináveis à saúde ambiental das populações

Normalmente, quando falamos em poluição ambiental nos referimos aos impactos sobre o solo, o ar e as águas de superfície. Poucas vezes atentamos que os recursos hídricos subterrâneos podem ser, seriamente, impactados pela atividade humana acarretando prejuízos inimagináveis à saúde ambiental das populações. Temos vários casos no mundo e, também no Brasil. Só para citar um exemplo, é notório o nível de contaminação das águas subterrâneas de Ouro Preto por arsênio, como resultado da interação química das rochas hospedeiras do ouro com os lençóis de água subterrânea, reflexo de sua secular mineração.

Historicamente na civilização humana, o solo tem sido utilizado para disposição dos resíduos gerados nas atividades cotidianas, tendo certa capacidade de atenuar e depurar a maior parte dos resíduos. As sociedades tornaram-se de tal modo complexas que a quantidade e a composição dos resíduos e efluentes gerados foram alteradas, em ordem de grandeza, nas últimas décadas, ultrapassando, em muito, a capacidade do solo em reter os poluentes. Assim, apesar de serem mais protegidas que as águas superficiais, as águas subterrâneas podem ser poluídas ou contaminadas quando os poluentes atravessam a porção não saturada do solo. A descontaminação das águas de sub-superfície representa um dispêndio excessivo de recursos financeiros, tempo e tecnologia, ainda inacessíveis à imensa maioria dos países do mundo.

Agora que sabemos da vulnerabilidade das águas subterrâneas, devemos alertar o Poder Público para o perigo que representa o hábito disseminado, em muitas cidades brasileiras, de se coletar água de “bicas”, em espaços públicos e privados, para consumo próprio, sem atentar para o risco latente. Certamente, na quase totalidade dos casos, desconhece-se o caminho percorrido por essas águas até sua surgência, nos locais de captação. Um exemplo didático encontra-se em nossa Serra do Mar. Ela recebe, em seus contrafortes, as chuvas carregadas de contaminantes gerados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, também chamadas de chuvas ácidas, que ao penetrarem pelas fraturas e fissuras das rochas, pode provocar uma silenciosa pluma de contaminação. É o caso da “bica” quase no alto da serra, no município de Cachoeiras de Macacu. O local é tão popular que já existe, até um comércio informal ambulante de suporte aos usuários.

Por tratar-se de um caso de segurança ambiental e saúde pública, em área de domínio público, é obrigação das autoridades municipais e estaduais promover, nos casos conhecidos, um programa simples de monitoramento da qualidade das águas de “bica” por meio de análises físico-químicas e bacteriológicas, regulares, à fim de se assegurar a qualidade da saúde ambiental da população.

 


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