22/08/2017 - 07h30min - Autor: Chico Vellozo

REALITY SHOW EM MARTE

REALITY SHOW EM MARTE

No projeto inicial, a escolha dos astronautas para a Mars One seria feita através de um reality show produzido pela Endemol, a criadora do Big Brother, e transmitida pela TV. A seleção seria feita pelo público que decidiria quem iria conhecer o planeta vermelho - e morrer lá

Li uma matéria sobre um projeto de envio de “colonizadores” ao planeta marte. Achei tudo muito curioso, principalmente pelo fato dos participantes não terem a garantia do regresso a terra. Mais de duzentas mil pessoas se inscreveram em um rigoroso processo de seleção para a escolha dos integrantes de um reality show que pretende levar voluntários para o planeta vermelho em dez anos. A Mars One, uma missão espacial privada que seria viabilizada através de patrocínios publicitários, teria como objetivo colonizar Marte a partir de 2025, numa viagem apenas de ida.

No projeto inicial, a escolha dos astronautas para a Mars One seria feita através de um reality show produzido pela Endemol, a criadora do Big Brother, e transmitida pela TV. A seleção seria feita pelo público que decidiria quem iria conhecer o planeta vermelho - e morrer lá. Marte foi o planeta escolhido para ser o palco desse programa porque é o mais habitável do sistema solar: possui água para ser extraída do solo, tem luz do Sol o bastante para permitir a construção de painéis solares, a gravidade é 38% da existente na Terra, o que se acredita ser suficiente para o corpo humano se adaptar, e tem uma atmosfera que oferece alguma proteção contra radiações solares e cósmicas. Os dias têm quase a mesma duração que na Terra, 24 horas e 39 minutos, e a temperatura é, pelo menos no papel, tolerável para humanos bem equipados: -60 ºC, em média.

Na prática, ir para Marte não é nenhum passeio no parque. As dificuldades começam já na viagem, que pode durar até oito meses. Durante esse período, a exposição à radiação e a tempestades solares - causadores de câncer - será constante. Para evitar o contato, os passageiros teriam de se esconder em cápsulas especiais da aeronave. Mesmo sem radiação, o aperto seria rotineiro no caminho de ida: cada astronauta teria menos de 20 m3 para viver, e os quatro passageiros da primeira missão teriam de racionar 800 kg de comida, 3 mil litros de água e 700 kg de oxigênio. Tanto tempo expostos à gravidade zero no espaço e depois à baixa gravidade em Marte, também pode trazer efeitos colaterais desconhecidos para a massa muscular, a densidade óssea e a visão.

Mesmo com todas as dificuldades previstas, 202.586 pessoas se inscreveram no projeto, 705 candidatos passaram para a segunda fase e, entre os 100 finalistas, tinha até uma brasileira. A previsão desse processo seletivo é de que sejam definidas as 24 pessoas que irão “colonizar” Marte. Todas essas informações me situaram em um contexto muito louco. Qual seria a motivação das pessoas realmente interessadas em partir em uma missão apenas de ida para um planeta distante? Cheguei a fazer um paralelo com os intrépidos aventureiros do período das grandes navegações que supunham que, a partir da linha do horizonte, poderiam cair em um abismo. Mesmo assim partiam em suas viagens marítimas que resultaram em inúmeras descobertas, mas eles não tinham a verdadeira dimensão do risco da empreitada, apenas não tinham o conhecimento que a terra era redonda. No caso da ida a marte, ao que me parece é um “suicido sideral”.

Ao refletir sobre tudo isso, cheguei à conclusão que adoro a minha vida, amo o meu planeta e, jamais, me aventuraria em uma viagem espacial Admiro o ímpeto dessas pessoas que se animam em embarcar numa aventura dessas e, com certeza, daqui a alguns anos vamos precisar de voluntários como eles para desbravar, assim como faziam os antigos navegadores, novos horizontes. A terra vai ser pequena para a espécie humana e as colônias em outros planetas farão parte da realidade em um futuro não muito distante. A Mars One pode ser um bom começo, mas não contem comigo para essa missão!

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