15/08/2016 - 08h50min - Autor: George dos Santos Pacheco

A conta, por favor

A conta, por favor

Pedi um pingado e um pão com manteiga, como sempre, naquela padaria no centro de Friburgo. Faz tempo que não lancho salgadinhos fritos; com 34 anos, meu metabolismo desacelerou e minha barriga está cada vez mais chegando na minha frente. É verdade que esse tipo de lanche rápido (ou fast food, como preferirem) estão espalhados por toda a cidade, mas não acredito que isso seja para facilitar a vida dos transeuntes, o negócio é que isso vende pra caceta, não estão nem aí se isso vai entupi-lo de carboidratos e gorduras saturadas, insaturadas e coisa e tal. O negócio é ganhar dinheiro. Mas que o cheiro da fritura seduz, ah, isso seduz. Ignorei a duras penas, segui para a padaria e pedi o café com leite e o pão.

Fiz meu lanche assistindo a TV de LED posicionada na parede propositalmente para que todos os clientes pudessem ver, de onde estivessem. O aparelho exibia manchetes jornalísticas e propagandas de outros estabelecimentos (mais propaganda do que manchetes, para dizer a verdade). Peguei a comanda e agradeci o atendente:

– Valeu, negão! – disse, fazendo um gesto de joia para o meu camarada, mas um monte de cliente me olhou torto. Então me dei conta: o atendente era mulato, e apesar de o termo “negão” ser lugar-comum na cultura brasileira, falado e repetido por todos os rincões desse Brasil, também estava carregada de um racismo enrustido. E eu chamava todo mundo de negão, fosse branco, amarelo, mulato... era um vício de linguagem. Ele nem ligou, retribuiu o sinal e eu segui para o caixa, sentindo-me alvejado de olhares censurantes.

Entrei na fila para o pagamento me sentindo mal por isso. Eu não era racista, e jamais quis ofender meu amigo, nem ninguém. Poxa vida... Ainda pesava nisso, com os lábios franzidos, quando a caixa me cobrou o valor do lanche. Como assim? Vinte centavos mais caro, o pão? Dez centavos a mais no pingado? Caramba… meu lanche acabou de ficar mais salgado. Mas fazer o quê? A crise não está dando mole para ninguém, mesmo (e eu não ia deixar de fazer meu lanche por causa disso).

Paguei meio contrariado, agradeci a todos e caminhei para o a estação de embarque (antiga rodoviária urbana), ainda incomodado por ser racista (pelo menos aos olhos dos outros), sem querer. Esperei por cerca de dez minutos, os ônibus engarrafando a Sete de Setembro, aguardando uma vaga para pegar os passageiros. Não mudou nada, era assim desde a rodoviária. O carro chegou, mas antes de subir no coletivo, observei uma mulher de cerca de quarenta anos, que ia para o mesmo destino. Era alta, morena e usava um vestido hippie (desses vendidos na feira da praça); ela se aproximou da porta de embarque e, então, franqueei a passagem com um sorriso e uma leve inclinação de corpo.

– Por favor…

– Não, pode ir. – disse abrindo mão da cortesia, com o semblante fechado.

– Por favor, eu faço questão! – insisti, mas ela fechou ainda mais a cara.

– Olha só… o que está acontecendo? Então, só porque eu sou mulher eu preciso de favores masculinos?

– Minha senhora, eu não disse isso…

– Não sou sua senhora.

– Eu queria apenas…

– Você não queria nada. – esbravejou com o dedo em riste. A essa altura, todos do ponto de ônibus estavam me olhando, e também os passageiros já embarcados. – Sociedadezinha medíocre essa… Você está achando, então, que... por eu ser mulher eu sou mais frágil? Vou sempre precisar de um homem em volta de mim para me proteger e me dar a passagem, ceder o lugar para mim? Seu machista!

– Eu? Machista? – retruquei indignado pela acusação. Eu nunca fui machista, não mesmo.

– Machista e tarado! Aposto que estava olhando para a minha bunda também. Vocês homens são todos iguais, pensam que a gente é um naco de carne… – continuou, e agora, outras mulheres se juntaram, sem nem mesmo saber como essa história tinha começado. “É isso mesmo…”, concordavam.

– Vocês vão subir ou não vão? A gente tem hora, pô! – perguntou o cobrador colocando a cabeça para fora da janela.

– Seu babaca! – gritou e se adiantou a mim, embarcando. E o motorista arrancou, antes que eu pudesse pensar em subir.

Suspirei. Perdi o ônibus por causa de uma gentileza. Ou tinha sido machismo? Todos ainda me observavam, contudo, naqueles próximos quinze minutos que aguardei pela condução, o grupo de pessoas que aguardava na Estação Livre se renovou, e me senti um pouco mais confortável. Subi, paguei a passagem, mas fui em pé, o coletivo estava lotado. Tomei o cuidado de não parar atrás de uma mulher, bastava um solavanco e eu seria acusado novamente. Segui a viagem pensando nesse monte de ismos: capitalismo, consumismo, racismo, machismo… será que era adepto de mais algum e não sabia? Repito: jamais quis ofender alguém, nem o meu amigo da padaria, nem a mulher no ponto de ônibus. Então me veio à mente, uma questão: era eu o preconceituoso, ou os outros? Fiquei confuso. Por precaução, a partir de agora, vou pensar duas vezes em usar um vício de linguagem ou fazer uma gentileza.

Acabei chegando em casa bem mais tarde do que o previsto. Minha mulher estava sentada ao sofá, com uma tromba “desse tamanho”.

– Demorou… – disse ela sem me olhar, fitando a TV ligada.

– Você não vai acreditar…

– Hum…

– Cedi a passagem para uma senhora (achei melhor usar esse termo, em vez de simplesmente mulher) para entrar no ônibus e ela se ofendeu. – comecei a me explicar, fechando a porta atrás de mim.

– Seu machista safado! Aposto que estava olhando para a bunda dela!

 


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