19/06/2018 - 08:39h - Autor: Ayrton Dias

Puro malte: O Melhor da Cultura Cervejeira

Puro malte: O Melhor da Cultura Cervejeira

O malte de cevada é o ingrediente mais importante na produção de cerveja, porém nem toda cerveja é puro malte. Os adjuntos, ingredientes alternativos ao malte, são utilizados com diversos objetivos e de acordo com o estilo da cerveja.

São consideradas cervejas puro malte, as artesanais, as importadas e as industriais da categoria premium - Foto: Carlos Mafort

No Brasil, a maioria das cervejas do mercado contém cereais não maltados, como o milho e o arroz, em até 45% do total dos seus ingredientes. O objetivo é produzir cervejas extremamente leves, claras, com mínimo sabor de malte e amargor, conforme padrão do estilo, que tecnicamente é chamado de standard lager. Além dessas características, o uso dos adjuntos torna a cerveja mais barata, o que permite maior competitividade no mercado. Algumas cervejas produzidas no país, apesar de parecidas com as lagers, utilizam pouco ou nenhum adjunto. São as premium lagers, que possuem sabor de malte e amargor um pouco mais acentuados e, em alguns casos, com leves notas de lúpulo no sabor e aroma. A Heineken e a Bavária Premium são exemplos de cervejas puro malte produzidas em larga escala no país, enquanto a Stella Artois inclui um percentual de milho entre seus ingredientes e a Kaiser Bock é um exemplo de cerveja puro malte de outro estilo. Entre as artesanais brasileiras a maioria possui sabor de malte e de lúpulo ainda mais pronunciado. 

A utilização de ingredientes alternativos não significa exclusivamente a produção de cerveja leve e barata. O adjunto pode ser utilizado para agregar sabor e um diferencial que o malte de cevada não pode oferecer, como a adição de trigo, aveia, centeio, mel, açúcar, frutas e até mandioca. Isso é determinado pelo estilo da cerveja e a criatividade no uso dos ingredientes. Portanto, sendo ou não puro malte, o importante é que a cerveja ofereça o que o consumidor espera dela, seja uma cerveja leve e de pouca complexidade ou uma cerveja encorpada de sabor mais acentuado. Todavia, só são consideradas "especiais" as cervejas produzidas dentro de um determinado padrão.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), fundada em 2012 por um grupo de fabricantes que responde por cerca de 96% do mercado brasileiro, as chamadas cervejas puro malte, que ocupam hoje 5% do mercado vem se destacando e a tendência é de dobrar esse percentual em no máximo cinco anos. São consideradas cervejas puro malte, as artesanais, as importadas e as industriais da categoria premium. Já para os consumidores, são necessárias algumas ressalvas em relação a essa classificação. As importadas devem ser de  alto padrão e as  “Premium” produzidas, realmente, com bons ingredientes .

A curiosidade e o interesse despertados pelas experiências sensoriais oferecidas pelas cervejas especiais tem sido tão grande quanto a expansão do segmento. Aspectos como cor, aroma e sabor criam uma atmosfera  envolvente e elas  passam a ser consumidas de maneira plena. Seus apreciadores não se contentam em apenas saborear a bebida. Para eles, a cultura cervejeira também tem muita importância. Conhecimentos históricos, tipos de produção, ingredientes, processos de fermentação, harmonização, principais escolas entre outros aspectos, se integraram a habitual conversa em torno das mesas dos bares.  Esses assuntos passaram a fazer parte da vida da nova geração de cervejófilos!

 

UM POUCO DE HISTÓRIA 

Até nos botequins, os assuntos se tornaram um pouco mais “técnicos” e o vocabulário utilizado incorporou termos como “aroma lupulado, “citricidade”, Golden Ale, “Stout etc... A descoberta da cerveja, por exemplo, um importante momento histórico para os cervejeiros, sempre rende brindes extras. Neles, são exaltadas as qualidades femininas! O processo de fermentação alcoólico da cerveja foi descoberto por acaso e, pelo que tudo indica, por uma mulher! A descoberta fortuita foi sendo  aprimorada e, a partir da Mesopotâmia, difundida no Egito e na Ásia, até chegar à Europa. Na idade média, a cerveja já era muito apreciada e as receitas caseiras faziam parte da dieta do povo.

A partir do século VI, os religiosos começaram a estudar o processo de fabricação da cerveja e assim os mosteiros passaram a produzir a bebida de maneira mais elaborada e em maior escala. Atualmente, a  cultura cervejeira já conta com grupos de estudos que se aprofundam no assunto. Para os estudiosos, a cerveja é mais rica em possibilidades de harmonizações do que o vinho e destacam que o malte, diferentemente das uvas, independe de estações apropriadas para ficarem prontos.  Ela é uma das bebidas mais populares do mundo, todavia, muita gente se mostra reticente em relação às novidades do mercado,  pelo fato de achar que a “cerveja de verdade” é a convencional: aquela industrializada em larga escala. Outro dado importante é que as cervejas especiais têm um custo mais elevado, dificultando o acesso das classes menos favorecidas a esse novo universo.

A Bohemia de Petrópolis, fundada em 1853, foi a primeira cervejaria do Brasil - Foto: Êxito Rio

A cerveja começou a ser produzida no Brasil no fim do século XIX! Durante muito tempo, o difícil  acesso às informações relacionadas a produção cervejeira e também a aquisição de insumos, fez com que não houvesse muito espaço para as produções artesanais. Com o advento da globalização as coisas mudaram, fazendo surgir uma nova era nas relações de consumo. O aumento das importações deu a dimensão do que realmente era cerveja. A partir daí, a busca por novos paladares fez surgir as produções caseiras, as famosas cervejas de “panela”. O crescente interesse pelo assunto fez com que fossem ministrados  vários cursos de produção cervejeira, que formaram muitos produtores de cervejas artesanais. A ditadura imposta pelo mercado, onde prevalecia apenas as variedades claras e escuras oferecidas pela indústria, foi suplantada pela ousada busca por novas possibilidades de sabores. Lúpulo, malte, fermento e água serviram de base para um verdadeiro processo alquímico revolucionário, onde as mais inusitadas combinações eram permitidas. O seleto grupo de consumidores das cervejas especiais foi aumentando e se tornando cada vez mais exigente. Era preciso muito mais!

Foi a partir dessa demanda que surgiram as chamadas cervejas gourmets - expressão muito utilizada por algumas cervejarias - e a bebida ganhou glamour e espaço na mídia. As degustações entraram na moda e os eventos de harmonização também. Estava se estabelecendo um novo padrão de consumo que norteou o mercado que, cada vez mais, passou a produzir em função da nova demanda que surgia.

ESPAÇOS TEMÁTICOS

Para as boas cervejas eram necessários copos adequados, pratos harmonizados, profissionais especializados e locais ideais. Surgiram, então, os espaços temáticos! Em Niterói, por exemplo, a Cervejaria “Noi” agrada até a quem não consome bebidas alcoólicas. Com uma estrutura de primeiríssimo mundo, o estabelecimento, localizado na Região Oceânica da cidade, virou ponto de encontro de várias tribos. Esses espaços, em alguns municípios, se tornaram verdadeiras atrações turísticas como é o caso da Vila St. Gallen, em Teresópolis e a Bohemia em Petrópolis, gerando uma uma grande expectativa em relação ao  Circuito Cervejeiro Serrano, que reunirá os municípios que compõem o Consórcio Serra  Verde Imperial.

A Vila St. Gallen em Teresópolis é um dos grandes atrativos turísticos da Região Serrana - Foto: Êxito Rio 

NOVA FRIBURGO A "CAPITAL NACIONAL" DAS CERVEJAS ARTESANAIS

Em Nova Friburgo, a destacada presença dos alemães, um dos povos colonizadores do município, foi fundamental para a cultura cervejeira local. Quem nunca ouviu falar dos famosos festivais de cerveja que atraíam grande quantidade de turistas e visitantes? A influência germânica se estendeu também à gastronomia e vários restaurantes se renderam a sua temática. O Restaurante Bräun&Bräun, é um bom exemplo disso! Localizado no bucólico bairro de Mury, é um espaço muito especial para os amantes da cerveja. Atualmente, sua carta de cervejas conta aproximadamente 200 opções. O ambiente é extremamente aconchegante e no cardápio constam sugestões de cervejas para a harmonização com as várias opções de pratos oferecidos pela casa. No Restaurante, o atendimento é altamente especializado e as cervejas são servidas nas temperaturas ideais, em copos, canecas ou até taças adequadas a cada variedade específica.

O Restaurante Bräun&Bräun é um dos pioneiros na comercialização de cervejas gourmets no país - Foto: Êxito Rio

A cultura cervejeira friburguense vem ganhando cada vez mais força chegando a contar com uma lei municipal que incentiva a produção e a comercialização das cervejas puro malte fabricadas no município. Nova Friburgo é pioneiro na criação de uma legislação que estimula o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva no setor cervejeiro. Dessa forma vem  movimentando a economia, fomentando o segmento de negócio e, obviamente, incrementando o turismo local, atraindo um público que, possivelmente, ainda investirá em outras áreas de negócio da cidade. A lei foi sancionada em agosto de 2015, com a ideia de transformar o município na capital nacional da cerveja artesanal. Atualmente Nova Friburgo já é reconhecida como polo de cervejas ditas especiais no Estado do Rio de Janeiro.

O município, que conta com uma associação da indústria cervejeira (Nova Friburgo Beer Alliance),  produz mais de 40 rótulos de vários estilos está em um estágio crescente de aumento de produção. Hoje, a capacidade de produção instalada em Nova Friburgo é de 60 mil litros/mês, com tendência a crescimento. A produção local é compatível com a venda para os estabelecimentos da cidade, porém parte do que é produzido aqui é vendido em outras praças, especialmente no Rio de Janeiro.

Gustavo Ranzato, através da sua cervja Ranz, incuiu a pacata Vila de Lumiar no mapa da cultura cervejeira do Estado do Rio - Foto: Êxito Rio

UM CAMINHO SEM VOLTA

Hoje já existe um bom número de “sommeliers biers”, uma categoria profissional que há até pouco tempo era desconhecida, assim como um grande número de sites e blogs dedicados ao tema. “É um caminho sem volta”, essa é uma frase muito citada entre os “iniciados”. As pessoas que ingressam no universo da cultura cervejeira passam a se interessar cada vez mais pelo assunto e, principalmente, pelas cervejas, é claro.

A bela Paula Pampillón é uma experiente Sommelier Bier - Foto: Êxito Rio

Não dá mais para se contentar com a mesmice. É necessário se aventurar em busca das novas propostas e, principalmente, do conhecimento. Essa é a palavra-chave para aqueles que têm no consumo de cervejas um hábito, não um vício e é através dele que se valoriza ainda mais as sensações. Não é necessário se tornar um mestre-cervejeiro ou um somellier bier para saber a importância dos bons ingredientes e da perfeita combinação entre eles na elaboração de uma boa cerveja! A grande variedade de opções oferecidas no mercado das cervejas especiais não é um estímulo para que se beba cada vez mais. Essa crescente oferta  apenas abre espaço para que se beba melhor. O setor que se tornou uma verdadeira fábrica de empregos, tributos, rendas e benefícios sociais, com uma das maiores contribuições econômicas do país, tem se aperfeiçoado.

No Brasil, a qualidade passa a fazer toda diferença  e a cerveja deixou de ser apenas uma bebida popular. Os bons rótulos exigem investimentos compatíveis com o prazer que proporcionam. Mas não se esqueça: “Aprecie com moderação e... se for dirigir, não beba!”

 

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