02/08/2016 - 10:13h - Autor: George dos Santos Pacheco

Tomara que seja Deus

Tomara que seja Deus

Dei uma bicada pingado e mordi o pão, assistindo a TV pendurada na parede. Antigamente – e isso não tem nem tanto tempo assim – uma padaria era um grande balcão de aço inox, um expositor de pães e bolos, algumas peças de mortadela penduradas e, perto do caixa (um camarada operava uma máquina cor de alumínio com botões barulhentos e o valor, composto de rolos com números separados, aparecia no visor embaçado) tinha um baleiro que rangia saborosamente ao escolhermos a bala. O baleiro foi embora, mas agora temos TV.

Desviei o olhar, distraído pelo morador de rua que entrou no salão. O homem, jovem, mas maltratado, seguia freguês a freguês, pedindo um lanche. As pessoas viravam o rosto, pronunciando um “não” entre os dentes, quando estes não estavam ocupados mastigando sua refeição. Pois bem, o cara chegou até mim. Eu não era melhor do que ninguém ali, mas o pedido me comoveu. Ele não estava pedindo dinheiro, ou vendendo canetas que não escrevem, ele estava pedindo comida. Ele estava com fome. No fim do mês, minha situação não era das melhores, mas eu devia fazer aquilo.

Acenei para meu camarada atendente, e disse para ele servir um lanche para ele. O morador de rua agradeceu, e perguntou se podia tomar um achocolatado também e é claro que não recusei. Ele podia ter pedido um salgado com refrigerante, um empadão, uma pizza, mas pediu simplesmente um pão com manteiga e um achocolatado.

Olhei para as outras pessoas, que o haviam ignorado. Eu também já tinha feito isso. Também já desviei de pedintes, também neguei ajuda, também já estacionei em vaga de farmácia, mesmo que o meu destino não fosse esse, também não devolvi o troco errado. Percebe como nós humanos seguimos nossa vida quase sempre querendo levar vantagem em alguma coisa e ignorando os outros como numa competição? Bando de safados é o que nós somos.

Senti-me envergonhado por isso. Foi então, voltando o olhar para a TV novamente, que vi a notícia de que uma sonda espacial que acabava de chegar à órbita de Júpiter. Lembrei-me de uma série de TV que versava sobre a origem da humanidade, no caso, em um planeta distante que não a Terra, em um passado mais distante ainda. Esse planeta se esgotou, não suportando a vida e os humanos (novidade, né?), que tiveram que procurar outros planetas em outros sistemas solares.  Divididos em doze tribos, foram perseguidos por uma inteligência artificial, que dizimou a maior parte deles. Os sobreviventes do genocídio decidiram, então, procurar por uma lendária décima terceira tribo para se refugiar. A Terra.

O morador de rua, terminou o lanche, me agradeceu e saiu, passando como uma sombra entre os outros clientes da padaria. Quem tem fome tem pressa, como dizia o Betinho. Eu ainda estava sentado ao balcão, degustando o já não tão quente pingado, mordendo mais um pedaço de pão e divagando. Apoiei os cotovelos na bancada, mastigando a massa, e imaginei a seguinte situação hipotética: digamos que sejamos realmente oriundos de uma primitiva raça humana surgida em outro planeta, e que eles estejam agora, lá no espaço, aguardando para descerem aqui e abrir suas naves, descerem suas rampas para nos levarem daqui: “Vamos embarcar rapaziada, e procurar um novo céu e uma nova terra”. A essa altura, eles já devem estar sobrevoando nossas cabeças, e meu amigo, se eles olharem aqui para baixo, e virem tanta corrupção, tanta sacanagem, tanta mesquinhez… não vão nem aterrissar. A curta distância vão fazer meia volta e fingir que não nos conhecem.

Olhei para um lado e para o outro, como se envergonhado pela possibilidade de alguém ter escutado meu pensamento. Pobres coitados é o que nós somos. Mirei também o meu pingado, já no final, tentando me certificar se não havia nada de diferente nele, que pudesse ter me causado alguma alucinação. Não, não havia nada, só um restinho de pó de café. Talvez tenha sido a manteiga (ou glúten).

Acho mais vantajoso tomar vergonha na cara e emendarmo-nos. Porque, na melhor das hipóteses, se for Deus em vez dos astronautas voltando à Terra, para organizar essa bagunça que nos tornamos, podemos, pelo menos assim, contar com Sua misericórdia. Agora… se não for o Todo Poderoso lá em cima nos observando, daí não tem choro nem vela. Corremos o risco de ficarmos perdidos no espaço, abandonados, quem diria, por nós mesmos.

Tomara que seja Deus.

georgespacheco@outlook.com

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